Foto: Biô Barreira

Jorge Felix é jornalista, 40 anos, trabalhou por quase 10 anos no Jornal do Brasil, onde foi repórter especial em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. Foi editor-assistente de Política da revista IstoÉ; colunista do portal AOL, repórter de economia dos telejornais Bom dia, Brasil e Jornal da Globo e coordenador de produção do Jornal Nacional. Na Editora Globo, foi um dos criadores da revista Quem, da qual foi redator-chefe. Na TV Cultura, implantou e coordenou o Núcleo de Comunicação da Fundação Padre Anchieta. Foi sócio da editora Barcarolla. Desde abril de 2006, integra o staff de editores da Letras&Lucros. Também escreve nas revistas Update (Amcham), ValorInvest e no jornal Valor Econômico.

23/03/2007 00:18

O dinheiro sobe ao palco

Mais uma vez, Molière e Shakespeare são encenados para dar voz a um protagonista secular da história da humanidade: o dinheiro, com seu poder de provocar conflitos em almas despreparadas para compreender sua verdadeira essência.



Por Jorge Felix



(matéria publicada no jornal Valor Econômico, 1/09/2006)



O repertório da dramaturgia brasileira é parcimonioso com o dinheiro. Embora o Brasil seja um país com uma história marcada pela corrupção – ou seja, a ganância – e as turbulências na política econômica (desde a sua formação capitalista até a sua sobrevivência em tempos contemporâneos no altar dos deuses do G-8), os autores brasileiros nunca dedicaram ao tema um grande ou importante espaço na cena nacional. Claro, sempre haverá quem levante a tese de que ao retratar o indivíduo em diversas situações de conflito ou penúria em sua vida cotidiana, o teatro está falando do dinheiro. Mas o fato é que a relação com o dinheiro tem despertado pouco interesse dos autores brasileiros.



As citações que vêm logo à lembrança são honrosas exceções para confirmar a regra, como “A moratória”, de Jorge Andrade (1922-1984) ou “A torre em concurso”, de Joaquim Manoel de Macedo (1820-1882). Estas, porém, muito mais voltadas para a economia ou a cultura do que para o trato com o dinheiro. Salvo comédias recentes sobre políticos corruptos ou outras caricaturas políticas, no bom sentido, escritas por Juca de Oliveira (“Meno male” ou “Caixa 2”), Marcos Caruso (“Porca Miséria”) ou até João Bethencourt (“Bonifácio bilhões”) há quase nada. Uma leitura dos livros do crítico Sábato Magaldi “Panorama do Teatro Brasileiro” (Ed. Global) e “Moderna Dramaturgia Brasileira” (Ed. Perspectiva) confirma que a relação do indivíduo com o dinheiro nunca foi uma temática de primeiro interesse para os dramaturgos brasileiros - embora as telenovelas a explorem de forma contumaz.



Outro título que pode marcar ainda mais a lista de exceções é o clássico “O santo e a porca”, de Ariano Suassuna, este sim um texto sobre o efeito do chamado vil metal nas relações humanas. Ou, se preferir o leitor, como o dinheiro é exigente, a ponto de apodrecer mesmo no conforto de um bom esconderijo, onde supostamente era tratado com todo o carinho. Suassuna nos mostra que o dinheiro quer é devoção. Neste momento em que a educação financeira está em pauta na vida do brasileiro, que os juros altos o estão transformando em, antes de tudo, um endividado, chama a atenção a ausência desta realidade contemporânea no nosso teatro.



No entanto, quando o tema é palpitante e está na frente de todos, sempre ganha a ribalta, independentemente da vontade dos novos autores. É isto que acontece agora quando o dinheiro sobe ao palco com as montagens simultâneas, em São Paulo, de dois clássicos, “O avarento”, de Molière (1622-1673), e “Timão de Atenas”, de William Shakespeare (1564-1616), textos que mostram há séculos o que o dinheiro pode e não pode comprar. As duas montagens, elogiadas pela crítica, colocam, respectivamente, os atores Paulo Autran e Renato Borghi encarnando personagens de histórias da difícil relação do homem com os valores materiais e o papel do dinheiro em nossa existência.



“Timão” foi a última tragédia do bardo inglês, pelo menos assim foi incluída no primeiro folio, de 1623. É um texto considerado inacabado e escrito entre 1608 e 1609, mas obrigatório para quem, hoje, lida com o dinheiro – seu ou de outro. Traz inúmeras lições para os gestores de private banking, administradores de fortunas, porque Timão ouve a todos no seu período de bonança menos seu gerente financeiro que era, naquela Atenas, o mordomo. “É pena ser tão cega a mão aberta pra não ter o infeliz a dor que é certa”, diz o criado para si mesmo quando vê seu patrão surdo a seus apelos e benevolente com jantares, festas e presentes para os amigos. Timão introduziu a hoje badalada psicologia do dinheiro.

Até o personagem Apemantus, o filósofo, com toda a sua arrogância, prepotência e acidez é ouvido sempre, mesmo que apenas para alimentar a discordância. O mordomo nem isso. Timão só o escuta quando está na mais profunda inadimplência que resulta de seu hedonismo. Não é mera coincidência qualquer semelhança com o exército de orientadores financeiros que pregam planejamento de gastos em rádio, jornais e televisões e a multidão de inadimplentes verificada atualmente no Brasil. Shakespeare fala é disso.



O tema principal de Timão é a misantropia. Ele abandona a humanidade depois de ser repelido por amigos que ajudou na fortuna e o negaram a gratidão quando ele vai à bancarrota. Mas o que queria Timão? A bajulação pura e simples de todos que o cercavam em Atenas. Novamente um sentimento bastante semelhante com o de consumidores que, vivendo na sociedade de consumo, “precisam” consumir “agora” um determinado produto, signo de status, que abrirá as portas para a bajulação da sociedade contemporânea ou de determinado grupo social no qual são incapazes de serem aceitos sem a apresentação desses passaportes e, por eles, gastam o que não podem e entram em dívidas.



“Hoje as pessoas vão a um restaurante, comem um pedacinho de carne, enfeitado com um alface, uma pimenta rosa e um aspargo, pagam uma fortuna pelo prato para quê? Para se encontrarem entre elas, é a fraternidade milionária, de casta, como na casa de Timão”, compara Renato Borghi, que levou muitos anos sonhando em encenar o texto. “É uma peça tão atual que as pessoas não acreditam que tenha sido escrita por Shakespeare, acham o tempo todo que estou improvisando, colocando cacos”, diverte-se o ator.



Enquanto Timão fere suas relações pessoais devido à sua “exuberância irracional”, Harpagon, o personagem de Molière, corrói qualquer sentimento humano à sua volta com sua avareza. É o outro extremo. Molière buscou inspiração em Plauto e Ben Jonson para dizer ao mundo que, se por um lado, como afirmou Shakespeare, “a casa muito farta um dia fecha”, por outro, a cobiça pode arruinar o indivíduo, da mesma maneira.



O avarento acaba por ser derrotado quando a moça por ele desejada vem a casar-se com o filho a quem injuriou, embora sua dor seja levemente atenuada pelo pensamento de que sua filha, que estava prestes a fugir de casa com o namorado, vai casar-se “sem dote”.

Harpagon é uma caricatura e torna-se ainda mais cômico quando rouba aveia de seus cavalos ou quando sua aversão constitucional à palavra “dar” obriga-o a usar a saudação “eu lhe empresto um bom dia”.



A crítica Bárbara Heliodora observa que por mais risível que Harpagon possa ser, há uma carga de seriedade, de repúdio profundo a mais esse exemplo de desrespeito aos valores humanos, sem dúvida responsáveis pelo fato de a obra de Molière ser – merecidamente – muito mais consagrada do que a de Plauto. “Molière coloca a questão com uma doçura através de seu humor talvez para dizer que podemos falar assim desse tipo de ser humano, mas estamos falando de um assunto patológico”, concorda o diretor da peça Felipe Hirsch.



“Cultuando o dinheiro, desrespeitando as proporções e os valores justos, ele se mostra antinatural, desumano, e é isso que Molière não perdoa”, afirma Bárbara. Não é à toa, destaca a crítica, que o autor francês elegeu em sua obra o dinheiro e o ciúme entre os temas principais. São equivalentes. O ciúme desmedido também pode fazer a vida insuportável.



Certamente por ter testemunhado a era de formação do capitalismo, Shakespeare elegeu o dinheiro como o âmago de uma de suas maiores peças: “O mercador de Veneza”. Ao contar a história de Shylock, o judeu que cobra uma dívida com um naco de carne, o autor, no século 16, já enumera todos os conceitos do capitalismo, como o risco do crédito, o spread abusivo, o desperdício de patrimônio, a incompetência dos herdeiros, a necessidade de hedge, a regra básica de diversificação de investimentos entre tantos outros.



O texto de Shakespeare coloca claramente tudo isso e deveria freqüentar qualquer empresa, banco ou sala de aula de economia.

Enquanto os clássicos esbanjam, os textos contemporâneos por aqui são raros. Qual o motivo? “No Brasil, atualmente, só querem falar sobre sexo”, ataca Bárbara. Ela lembra que o teatro brasileiro sempre foi mais político-ideológico do que voltado para a economia. “Primeiro por motivo histórico, que foi a ditadura, depois porque a economia brasileira nunca foi lá essas coisas para merecer uma dramaturgia própria. Os autores, com toda razão, sempre preferiram falar dos sentimentos humanos que são originados no ambiente que se vive e esse ambiente está, de qualquer forma, influenciado pelas questões da economia e do dinheiro”, afirma. “Mas já estava na hora realmente de os autores prestarem mais atenção em alguns problemas crônicos do país no que tange à economia.”



Um dos coordenadores do ciclo de leituras dramáticas do Sesi, Renato Borghi leu, na última seleção, mais de 150 textos de novos autores. Ele concorda que o tema é desprezado pela maioria. Neste bolo, alguns falavam da miséria nordestina ou de mazelas nacionais, mas o dinheiro mesmo estava ausente. “Está fazendo falta, gostaria de encontrar isso na dramaturgia nacional, alguém que pegasse o tema e o abordasse de forma dialética e não partidária ou simplesmente só antibancária”, diz o ator.



Borghi lembra que, durante a ditadura, os autores obrigatoriamente voltaram-se para os temas ideológicos, depois, na década de 80, falar dessa realidade soava de mau gosto, era quase que necessário falar das patologias, dramas psicológicos, “como se estes não tivessem a ver com a grana”. Mas estavam mais preocupados em “discutir a relação”. “Era natural porque a censura era moralista e queriam falar dessas coisas, do sexo, da vida amorosa ou do comportamento simplesmente”, lembra Borghi. “A nova dramaturgia, com certeza, vai tratar desse tema porque o momento que estamos vivendo no país impõe.” Felipe Hirsch, embora discorde da afirmação de que a dramaturgia nacional seja pobre no tema, vê uma grande necessidade de discutí-lo. “É tão óbvio a importância de montar O Avarento, ainda mais quando a gente houve defesas à ética distorcida ou que os fins justificam os meios, a peça fala de como o poder, as classes dominantes e as pessoas lidam com o dinheiro e temos que falar disso quando alguns começam a acreditar que uma atitude ilícita é, de algum jeito, justificável”, afirma o jovem diretor.



No segundo texto de sua trilogia iniciada com “Regurgitofagia”, o vanguarista carioca Michel Melamed foi um dos poucos a entrarem no tema nos últimos tempos. Embora a crítica tenha recebido seu espetáculo com menos entusiasmo que o primeiro (no qual ele sentia choques quando a platéia ria), Melamed colocou a questão em cena com a peça “Dinheiro grátis”, na qual já no título diz a que veio. Seguindo sua linha de teatro participativo, Melamed encena um leilão usando o bordão “não tem preço” adotado pela propaganda de um cartão de crédito. O autor explora a construção do caráter financista na vida moderna e estimula a reflexão sobre seus efeitos na convivência urbanóide, mas “Dinheiro grátis” ainda é muito pouco para cobrir o débito da dramaturgia brasileira.

Sem muitos textos nacionais, os interessados no tema agarram-se a clássicos ou autores estrangeiros mais atentos. A diretora Ariela Goldman, por exemplo, estuda alguns textos, entre eles “Glengarry Glen Ross” (traduzido por “O sucesso a qualquer preço”, no cinema), de David Mamet. Atualmente ensaiando outra peça de Mamet, Ariela quer falar sobre o dinheiro. “A gente tende a pensar em dinheiro, mesmo quando vai tratar de valor por um trabalho, como uma manifestação menor da vida. As pessoas têm vergonha de falar e esquecem que o comércio é uma troca. E ali está também incluída uma troca humana, seja entre pessoas, empresas ou países”, analisa a diretora do megasucesso “Novas diretrizes em tempos de paz” (2002).



Mamet consagrou-se com este texto, vencedor do Pulitzer Prize for Drama de 1984. Cinco corretores são capazes de qualquer coisa para cumprir suas metas de vendas – no caso o novo empreendimento que dá título à peça – e nesta luta é só isso o que conta na relação entre seis homens que deveriam ser apenas bons colegas de trabalho. “Mamet se utiliza disso para mostrar como se dão as relações humanas, como cada um se vira para vender. Neste momento, me interessa muito colocar este tema no palco”, afirma Ariela, que ensaia outro texto de Mamet, “Edmond”. Na peça, uma cigana alerta um alto executivo (que será vivido pelo ator Marco Antônio Pâmio) de que sua vida é uma droga, apesar de ele ter no banco quantia suficiente para comprar tudo o que quer.


enviada por Jorge Felix






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