28/03/2007 14:28
Matemática da vida
(Esta matéria foi publicada pelo jornal Valor, em 2005, Ano Internacional da Ciência, e foi reproduzida no programa da peça "A dança do universo", da companhia Projeto Arte-Ciência no Palco)
Eu não me guio muito pelo raciocínio. É a intuição que mostra a solução dos problemas. A frase do cientista pernambucano Mario Schenberg (1914-1990) explica como o ator Carlos Palma, numa viagem ao Chile, decidiu assistir o monólogo Einstein, do canadense Gabriel Emanuel, e encontrou ali a saída para a inquietação de estar cinco anos longe do palco. Isso foi em 1995.
Três anos depois, Palma montou a peça no Brasil. Voltou a atuar e encontrou a razão para a sua arte. A divulgação científica fez do Núcleo Arte e Ciência no Palco uma referência como companhia estável e soma hoje um repertório de sete espetáculos e quatro prêmios. Neste 2005, ano mundial da física, o grupo dá um grande passo para sua longevidade ao estrear, no 14° Festival de Curitiba, o texto A dança do universo, o primeiro sobre um cientista brasileiro.
É claro, o escolhido foi Schenberg. Depois de Albert Einstein, Leonardo Da Vinci, Richard Feynman, Niels Bohr, Werner Heisenberg e Alan Turing era o momento de destacar a ciência brasileira. A dança do universo, inspirado no best-seller homônimo do físico Marcelo Gleiser, é também o primeiro texto nacional montado pelo núcleo (a única exceção foi o infantil Da Vinci, pintando o sete, de Francisco Alves).
A peça foi escrita pelo ator Oswaldo Mendes, intérprete de Schenberg. Como nas montagens anteriores, o texto segue as mesmas orientações das peças anteriores. O teatro deve falar sobre os dramas humanos, emoção, moral, ética e a ciência está no centro destes conflitos. Nada pode ser encenado com aquele tom didático antigo, afirma Palma.
Foi mais preso à matemática da vida, como ele define, que o ator e diretor fez da ciência uma desculpa ou uma metáfora - para discutir o Homem e acabou atraindo mais de 500 mil espectadores às sete peças do núcleo. O que nos interessa é o lado humano dos cientistas que, no final das contas, é o que vai impulsionar o que eles irão fazer e descobrir no campo científico, conclui.
O ponto de vista é importante porque a maior dificuldade do grupo além do patrocínio de sempre, agora parcialmente resolvido com o apoio da Interprint e do Colégio Etapa é encontrar bons textos sobre o tema. A dança do universo é o resultado de um longo processo de leituras, adaptações e encomendas de peças sem sucesso. Sempre quis ter um texto nosso, mas é muito difícil encontrar a ciência na dramaturgia brasileira e encontrá-la sem hermetismo aí é mais difícil ainda, afirma o ator.
Oswaldo Mendes aceitou o desafio e, por estar tomado pela conceituação do grupo em relação ao que pretende mostrar, conseguiu caminhar com equilíbrio entre o que é teatro e o que é escola. Se o autor tiver na cabeça que precisa ensinar alguma coisa, já dançou, recomenda Palma. É com esta convicção que as peças conseguem seduzir mesmo um público leigo e até avesso à ciência, mas interessado na difícil equação da vida.
Em Quebrando códigos (2003), do inglês Hugh Whitemore, o grupo contou os dilemas do matemático Alain Turing (1912-1954), que decifrou os códigos alemães durante a 2ª guerra, montou uma máquina precursora do computador e morreu ao morder uma maçã envenenada que mais tarde seria a logomarca adotada pela gigante da informática Apple.
O motivo do suicídio foi a quebra de um código de conduta pois Turing era homossexual.
Até 2001, quando estourou com a montagem de Copenhagen, do britânico Michael Frayn, o Núcleo Arte e Ciência no Palco cumpria temporadas tímidas em relação ao público. A crítica carioca Bárbara Heliodora, no entanto, definiu a peça com uma frase de efeito: Isso é que é teatro!. A epígrafe fez da história de um encontro entre os pais da bomba atômica, Niels Bohr e Werner Heisenberg, um sucesso e permitiu uma nova temporada paulista no Teatro Folha.
Dali em diante, todas as peças do Núcleo estão permanentemente em cartaz, sendo em turnês ou apresentações únicas em escolas, universidades e empresas. Copenhagen, mesmo com mais de três horas de duração, conquistou as platéias e rendeu prêmios de melhor espetáculo e melhor diretor para Marco Antônio Rodrigues, além do Prêmio Estímulo Flávio Rangel, concedido pelo governo de São Paulo.
O melhor de tudo foi que o projeto ganhou fôlego. O Núcleo Arte e Ciência no Palco hoje é sinônimo de bons espetáculos, interpretações primorosas e pesquisa séria. É com este patrimônio que Palma e Oswaldo estão à frente de um elenco de mais cinco atores, dirigidos por Soledad Yunge, para incluir mais um personagem da ciência nesta galeria.
O Núcleo quer fazer de 2005 um marco na divulgação científica por meio do teatro. A montagem de A dança do universo faz parte de um plano ambicioso com uma programação de palestras, debates e outros eventos paralelos que surgirão no embalo das comemorações do centenário da teoria da relatividade.
O espetáculo começa justamente com esta efeméride. Um grupo de teatro ensaia uma montagem comemorativa e para unir o mundo objetivo (da ciência) ao subjetivo (do teatro) traz à lembrança a figura de Mário Schenberg e, com ele, mergulha no interminável conflito entre a ignorância e o conhecimento, desde os mitos da Criação. Durante este processo, outros personagens entram em cena como Copérnico, Kepler, Galileu, Newton e Einstein.
Aos poucos, revela-se, pelo humor e pela poesia, a condição humana desses homens que mudaram a nossa relação com a Natureza e com o Universo. Se graças a eles não precisamos tanto, como no passado, de Deus ou de Deuses para entender o mundo, isso faz crescer em nós a consciência de que o Homem é o destino do Homem, como dizia o poeta Bertolt Brecht, diz a sinopse da peça.
A biografia de Schenberg é um excelente estímulo para aquecer este debate. Como se sabe, este professor venceu resistências e conseguiu instalar o primeiro computador da Universidade de São Paulo. Schenberg foi uma personalidade brasileira na ciência, nas artes e na política. Na primeira, criou o chamado Processo Urca, em 1940, com o astrofísico George Gamow, depois de reparar que este tinha feito cálculos incompletos para desvendar o segredo do colapso das estrelas supernovas.
O nome de batismo fazia referência ao Cassino da Urca, o qual Gamow visitou a convite do amigo brasileiro e onde o dinheiro desaparecia muito rápido, como as supernovas. No campo artístico, Schenberg reinventou-se crítico de arte dos bons depois de perder o mandato de deputado estadual devido à extinção do partido comunista.
Outra cassação viria na década de 60 e uma terceira, desta vez levando-o à aposentadoria compulsória como professor no vendaval antidemocrático do AI 5, baixado em 1968.
A ousadia de contar essas biografias no teatro empresta ao Núcleo Arte e Ciência no Palco uma distinção de coragem. Além de apostar no teatro, aposta na ciência e abre mão de textos fáceis e ligeiros. O curioso é que a única comédia no repertório do grupo, Perdida...uma comédia quântica, do espanhol José Sanchis Sinisterra, foi justamente a peça de menor sucesso, embora Oswaldo tenha recebido uma indicação ao Prêmio Shell.
O fato só reforça a vocação do núcleo para trilhar um caminho aparentemente mais árduo, mas que se descobre o mais promissor para o seu teatro. Um percurso similar ao de muitas descobertas científicas.
No ano passado, a peça E agora, sr. Feynman?, do americano Peter Parnell, sobre a vida de Richard Feynman acabou antecipando uma onda de interesse pela história do físico americano no Brasil. O livro O arco-íris de Feynman (Editora Sextante), lançado recentemente, já está em algumas listas de best-seller.
Peça e livro seguem o mesmo roteiro: a conversa de um jovem cientista com o gênio. No prefácio, o autor Leonard Mlodinow escolheu uma frase do nobel Julian Schwinger sobre Feynman que vem bem a calhar com o trabalho do grupo: Assim se manifestou um homem honesto o maior intucionista de nossa era e o mais perfeito exemplo do que pode conseguir quem quer que tenha coragem de remar contra a corrente.
(Publicada em 24 de março de 2005, jornal Valor Econômico, Caderno EU&Fim de Semana)
enviada por Jorge Felix
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