28/03/2007 14:50
Os novos shakespeareanos
A obra do autor inglês vive no Brasil tempos de interesse renovado, com leitura que se diversifica para atingir públicos sempre mais amplos
Uma das explicações mais consensuais para a popularidade de William Shakespeare (1564-1616) é a extrema preocupação que ele sempre teve em ser compreendido por aqueles menos letrados.
O bardo inglês insistia em usar as imagens mais corriqueiras, as metáforas (já que está em moda falarmos delas) mais democráticas e situações bem familiares para seu público. É por isso que causa urtigária em alguns admiradores de sua obra a pecha de difícil, incompreensível ou erudito que ele, injustamente, carrega mundo e séculos afora.
Aos leitores pode parecer exercício de soberba afirmar que Shakespeare é tão fácil quanto as centenas de livros de auto-ajuda empresarial ou administrativa que lotam as estantes de homens de negócio. No entanto, basta um pouco de familiaridade com a obra do poeta universal e não é à toa que ele honra esse título para jogarmos no lixo todas as lições dos autores que fazem sucesso com suas pregações de management.
Durante todo o dia de hoje, há uma boa oportunidade para os interessados em arriscar um contato com Shakespeare. Mais uma vez se repetirá uma cena que está se tornando comum no Brasil ou bem mais comum do que pode imaginar nossa vã filosofia. Um auditório lotado para discutir a obra do dramaturgo. Por nove horas, alguns dos maiores especialistas brasileiros em Shakespeare, atores e diretores de teatro e de cinema debatem com uma platéia.
É a 2ª Jornada de Estudos Shakespeareanos, organizada pelo professor John Milton, no Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo (USP). Mas é mera coincidência o evento estar em um ambiente acadêmico. Nos últimos anos, Shakespeare invadiu novos palcos, salas de visitas e até empresas, tamanho a procura por sua dramaturgia 400 anos depois de sua morte.
Na década de 90, profissionais de várias áreas decidiram aventurar-se por uma expedição pela obra do maior dramaturgo inglês e o crescimento do interesse por Shakespeare no Brasil provocou um boom de montagens, edições, novas traduções e, sobretudo, o surgimento de um grupo de acadêmicos com trabalhos e teses de nível internacional. E nota-se: Shakespeare é um dos autores mais estudados no mundo. É impossível manter-se atualizado com tudo o que sai, estima-se que são mais de 6 mil trabalhos por ano, afirma a crítica de teatro Bárbara Heliodora, uma das maiores autoridades em Shakespeare no mundo, doutora em artes pela Universidade de São Paulo com o monumental A expressão dramática do homem político em Shakespeare (Paz e Terra, 1978) este e o seu Falando de Shakespeare (Perspectiva, 1998) são obrigatórios para os interessados em embrenhar-se pelo pensamento do autor.
Durante muitos anos, Bárbara foi sinônimo de Shakespeare no Brasil. Ainda é. Mas agora o dramaturgo já conta com um elenco de pelo menos 30 protagonistas reunidos no Centro de Estudos Shakespeareanos (www.funedi.edu.br/cesh). Alguns sairam das salas de aula da própria Bárbara, outros já iniciaram a vida acadêmica seduzidos pela poesia elisabetana.
Sediado em Belo Horizonte, o centro é ligado à Fundação Educacional de Divinópolis, da Universidade Estadual de Minas Gerais, e coordenado pela professora Aimara da Cunha Resende, primeira latino-americana a ser convidada para o encontro anual do Shakespeare Institute, em Stratford-on-Avon, cidade natal do dramaturgo. No ano passado, Aimara coordenou a edição de Foreign accents: brazilian reading of shakespeare, editado pela Universidade de Delaware, com artigos de 14 acadêmicos brasileiros.
Os pesquisadores do mundo inteiro se interessam em conhecer a leitura brasileira da obra de Shakespeare, afirma Aimara, uma das palestrantes de hoje na USP.
Essa leitura nacional está cada vez mais diversificada, produtiva e preocupada em levar a poesia de Shakespeare a todos os níveis de conhecimento. Há desde uma primorosa tradução, como a de Cimbeline, rei da Britânia (Editora Iluminuras), assinada pelo professor José Roberto OShea, até um esforço de popularização da dramaturgia shakespeareana com o trabalho do escritor Fernando Nuno, que converteu à prosa Hamlet, Macbeth, Sonho de uma noite de verão e Romeu e Julieta (serão 12 volumes numa coleção da Editora Objetiva). Quando comecei a ler Shakespeare na juventude queria ser engenheiro, li tudo o que a biblioteca possuia, e tenho certeza de que foi isso que me fez mudar de carreira, lembra Nuno, formado em Jornalismo, Letras e História da Arte.
O trabalho de José Roberto OShea é considerado um dos de maior fôlego acadêmico. Primeiro pelo repertório, seleciona peças pouco conhecidas e jamais encenadas no país, e depois porque se dispõe a uma tradução com valor acadêmico, com notas e pesquisa árdua. A tradução de Cibeline de OShea ficou em segundo lugar no Prêmio Jabuti do ano passado.
O professor já concluiu também Antônio e Cleópatra e Conto de inverno está no prelo. Um dos campos dos chamados estudos shakespeareanos que mais cresce e mais desperta interesse é a questão do foreign Shakespeare (i.e. Shakespeare estrangeiro, termo cunhado por Dennis Kennedy, chefe do Departamento de Teatro do Trinity College, em Dublin).
A indagação básica que alimenta as pesquisas nesse campo tão promissor é: que fenômenos podem ser observados na concepção, encenação e recepção da dramaturgia shakespeareana quando esta é destituída do próprio inglês elisabetano, quando é transportada para outros contextos culturais e encenada, por exemplo, em japonês, português na variante brasileira ou em suaíli ?
No Brasil, Shakespeare tem permitido uma leitura bastante eclética. Das telenovelas (o Cravo e a Rosa, por exemplo, adaptação de A Megera Domada) até as montagens, como agora o Hamlet musical em cartaz na Cultura Inglesa, em São Paulo, entre outras cinco encenações do autor na cidade e mais uma no Rio de Janeiro, passando pelas teses e trabalhos universitários.
Autora da elogiada introdução de Cibeline, a professora Marlene Soares dos Santos, da Universidade Federal do Rio, lembra que o Brasil sempre contou com traduções notáveis, mas o aumento do interesse tem permitido a editoras e tradutores aprimorarem ainda mais essa excelência. Um dos grandes trabalhos, segundo Marlene, é a tradução de Rei Lear de Aíla de Oliveira Gomes, uma veterana estudiosa do bardo.
O Raul Cortez chorou quando leu a tradução dela e não pôde ler mais porque já queria trocar trechos do texto que ele estava encenando, testemunha Marlene.
A tradutora hors-concours no país ainda é Bárbara Heliodora, com o maior número de títulos traduzidos (Lacerda Editores). Sem revisor, sem qualquer tipo de auxílio em pesquisa, cumprindo prazos curtos, sem apoio financeiro além de direitos autorais e desdobrando-se em outras atividades, como cursos e palestras pelo país todo e uma constante atividade de crítica teatral, Bárbara, aos 80 anos, é quase uma heroína do autor que propaga.
No entanto, ela mesma acredita no surgimento de novos especialistas respeitáveis, como OShea e Aimara. As inúmeras atividades de Bárbara, que chega para uma aula num sábado pela manhã direto do aeroporto, é a maior prova da enorme demanda por Shakespeare no Brasil.
Preocupadas em atender a este novo leitor brasileiro de Shakespeare, as editoras buscam títulos além das obras traduzidas. Em 2001, chegou às livrarias uma biografia clássica, Shakespeare, uma vida (Companhia das Letras), de Park Honan. OShea além de traduzir Gênio (Objetiva) de Harold Bloom, colocou nas prateleiras outro livro indispensável do especialista, Shakespeare, a invenção do humano (Objetiva), no qual o crítico literário afirma que Shakespeare foi mais importante para o pensamento ocidental do que qualquer outro filósofo.
Recentemente, dentro desse esforço de atender a um público crescente foi lançado aqui com mais de 40 anos de atraso o livro de Jan Kott, Shakespeare, nosso contemporâneo (Cosac e& Naify). E outros ainda virão. A Record prepara a reedição de Sonetos, de Jorge Wanderley. E, em maio de 2004, O rosto de Shakespeare, mistério literário e histórico com uma trama detetivesca sobre a busca e exploração da verdadeira imagem do poeta a partir de uma pintura do século XVII, descoberta em 2001 no Canadá. Aqui no Brasil se falou pouco dessa imagem, mas foi notícia no mundo todo.
O trabalho das editoras estimula os novos shakespeareanos brasileiros, alimenta novas montagens e aproxima o pessoal da pesquisa com o do teatro. A professora Liana Leão, da Universidade Federal do Paraná (Ufpr), autora de tese sobre A Tempestade é um desses exemplos de intercâmbio entre o mundo acadêmico e o palco. Debruçou-se sobre a montagem de Caliban, do ator Marcos Azevedo, encenada em Londres e Edinburgo.
O diretor Felipe Hirsch trabalha com a consultoria da professora Celia Arns de Miranda, também da Ufpr. Havia dois mundos diferentes, o acadêmico e o do teatro, agora esse diálogo tem sido mais frequente e quando ele existe é ótimo, festeja Aimara.
Esse intercâmbio, porém, tem alcançado terrenos mais distantes.
No seu trabalho, Dirigindo Shakespeare, a professora Margarida Gandara Rauen, outra da Ufpr, atribui o crescimento do interesse por Shakespeare a melhores traduções e ao seu caracter de autor de todos os tempos e todo mundo. Acreditando nisso a professora Miria Gomes, de Belo Horizonte, apresentou tese de mestrado na Unicamp estudando o ensino de Shakespeare nas escolas públicas da periferia. Há muitos estudos promissores como este, a popularização só pode levar o aluno a ganhar, acredita Aimara.
Além das escolas, as empresas começaram a perceber que a obra de Shakespeare é valiosa para os ensinamentos de administração, política, psicologia e economia. Os shakespeareanos são requisitados para palestras em empresas ou até mesmo aulas interpretativas. A obra de Shakespeare é importante para um homem de negócio constatar a importância crucial da palavra, do silêncio e do gesto em qualquer processo de negociação, aponta OShea.
A obra mais citada como indispensável para aqueles que lidam com a economia é O Mercador de Veneza. O dinheiro é o tema central da peça e Shakespeare não fala é isso, é assim, ele apresenta a situação, age como um psicanalista, leva a pensar, explica Aimara.
Em O Mercador de Veneza, Shakespeare resume quase todos os temas do debate econômico da atualidade. Os juros altos cobrados pelo judeu Shylock estão no centro da ação dramática.
Mas outros temas como empreendedorismo (nas atividades de Antônio, o mercador), o antisemitismo gerando um conflito social, o dumping (Eu o odeio...empresta ouro grátis rebaixando os juros cobrados em Veneza, diz Shylock), a desigualdade social na fala de Nerissa, a aia de Pórcia (Os que saturam por excessos ficam tão doentes quanto os que minguam por falta), a concentração de rendas (Dinheiro demais compra cabelos brancos, outra fala de Nerissa). Mas é na pregação do liberalismo econômico que O Mercador de Veneza ganhou o coração de economistas como Roberto Campos (1917-2001). Uma das frases que este velho shakespeareano gostava de colocar como epigrafe de seus artigos era uma fala de Shylock: Lucro é benção se não for roubado.
(Publicada no jornal Valor Econômico, 21/11/03)
enviada por Jorge Felix
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