03/04/2007 17:12
Brecht para as massas
Num país como o Brasil, vice-campeão mundial em desigualdade de renda, atrás apenas de Serra Leoa, o dramaturgo alemão torna-se mais contemporâneo do que a telenovela do momento
A melhor forma de transmitir conceitos de R.H. e relações interpessoais dentro do espaço corporativo pode ser uma sessão da peça A alma boa de Setsuan, de um tal de Bertold Brecht, em cartaz no Teatro da USP, na brechtiana Rua Maria Antônia, em São Paulo. O motivo da indicação é simples e parte da pergunta que o autor tentou responder: Vivendo num mundo competitivo, onde predominam as necessidades materiais do ser humano, o homem pode exercer a bondade ? Pode ajudar ? Pode ter preocupações altruístas ? Escrita quando o nazismo assolava a Europa e a benevolência humana era desafiada pelos limites da sobrevivência, o texto é perfeito para discutir a capacidade de tolerância, complacência, reação e afeto nesses nossos dias.
Foi a partir deste questionamento que os atores da Cia Oberson, Lourdes e os Mexicanos escolheram o texto e o resultado foi surpreendente. Em duas horas e meia de espetáculo, o elenco sustenta o drama da personagem que quer ser boa, mas abre mão de sua vocação porque precisa reagir às ações dos outros num ambiente adverso. A peça mostra como dentro de um sistema onde as pessoas querem ter sua casa, seu carro, etc, pensar nos outros, complica, afirma Fernando Nitsch, 27 anos, que divide a direção com Rui Cortez, 30 anos. O foco da montagem foi fazer a história compreensível, desmistificando o autor. A composição jovem do grupo favoreceu a empreitada, que conta ainda com atuações precisas dos atores Leda Maria e Pablo Sgarbi, como protagonistas.
O mérito da montagem é justamente traduzir Bertold Brecht (1898-1956) para a nova geração. Qualquer diretor disposto a encená-lo hoje enfrentará, de cara, um desafio, sobretudo e sempre é bom que seja assim, para seguir as rígidas diretrizes do dramaturgo alemão se estiver trabalhando com um elenco de jovens. Como explicar Brecht para uma geração que nasceu com o fim da Guerra Fria, soube da existência do Muro de Berlim pela tevê, pelos livros ou pela internet e está seduzida pela sociedade de consumo e muito mais inclinada a disputar o seu lugar neste mundo financista globalizado do que afeita às pregações comunistas tão presentes ou leitmotiv da obra do fundador do Berliner Emsemble ? No entanto, esta é apenas a primeira impressão e, para ser bem brechtiano e quebrar a regra, não é a que fica. Embora por sua obsessão em transmitir os conceitos socialistas por meio de seu teatro, Brecht possa parecer démodé, ele nunca esteve tão atual.
A explicação é simples. Brecht foi o autor da condenação à guerra, ao preconceito, à discriminação e, acima de qualquer outro tema, foi um dos melhores retratistas das diferenças sociais. Num país vice-campeão mundial de desigualdade e má distribuição de renda, atrás apenas de Serra Leoa, Brecht torna-se mais contemporâneo do que a telenovela do momento. É fácil entender, portanto, como a indústria cultural está voltada para Brecht, promovendo uma retomada. Numa primeira olhada, pode parecer que o autor está relegado ao exílio. Engano. O lançamento de Estudos sobre teatro, reedição da Editora Nova Fronteira, (256 páginas, R$ 29,00), com as anotações do encenador sobre suas próprias peças, é um marco nesta onda de revival do autor de Galileo Galilei.
É claro que a primeira edição, nos anos 60, em plena ditadura militar, causou muito mais frisson. Minha geração leu este livro com uma devoção cristã, apesar de todo nosso ateísmo comunista. Alguns, foi o meu caso, nem esperaram o livro chegar aqui, lemos tudo sem gerúndio mesmo, na edição portuguesa. (...) Bom, não vou falar dos outros que leram nessa época, mas eu não entendi da missa a metade, conta o diretor Aderbal Freire Filho, num apropriado texto de apresentação à nova edição. Brecht morreu ?, questiona ele. Brecht está mais vivo do que nunca (...) nada é tão importante para a perfeita compreensão do teatro do século 21 quanto a obra de Brecht, tanto suas peças quanto sua obra teórica, concluí Aderbal.
É justamente a derrota do socialismo e a hegemonia capitalista financeira que torna a obra de Brecht cada vez mais moderna. Ele foi visionário e pregou, panfletou, alertou que tudo iria chegar exatamente onde estamos. Nesta retomada do autor, para aqueles que preferem uma discussão das teorias de interpretação de Brecht o distanciamento e as polêmicas (ou falsas polêmicas que a envolvem), o Teatro Fábrica São Paulo (Rua da Consolação, 1623, no Centro da capital paulista) promove até o dia 21 de junho o ciclo de palestras Diálogos com Brecht, coordenado pelo diretor e autor Flávio Desgranges, com participação de José Antônio Pasta Junior, Celso Favaretto, Iná Camargo Costa e outros. Especialmente agora é necessário montá-lo e discutí-lo, as contradições do capitalismo só acirraram a atualidade da obra dele, isso é terrível, mas é verdade, afirma o ator Sérgio Audi, da coordenação do Fábrica.
Com a preocupação de levar o texto de Brecht ao público mais carente matéria prima das peças do autor alemão o Fábrica mantém uma montagem de A exceção e a regra cujas sessões são em horários especiais para Ongs, instituições de terceiro setor e comunidades da periferia de São Paulo. Seja nas peças didáticas, seja nas épicas, a platéia é atuante, crítica e aceita muito bem a dramaturgia do Brecht, eu acho até que o didatismo, que muitas vezes é criticado, resgatado para o século 21, tem muito mais a ver hoje, afirma Sérgio Audi.
Até mesmo o escritor e dramaturgo francês Jacques-Pierre Amette (ou Paul Clément, para quem prefere seu pseudônimo para livros policiais) chega ao Brasil na esteira deste bloco brechtiano com o romance A amante de Brecht (ed. Record, 238 páginas, R$ 29,90). Amette coloca uma atriz-espiã na cola do dramaturgo alemão explorando um questionamento que sempre intrigou a Alemanha socialista (RDA): por que Brecht preferiu o exílio nos Estados Unidos ? O romance é delicioso, daqueles que vira uma brincadeira descobrir o que é verdade e o que é ficção. Uma prova que Brecht está mesmo por toda a parte.
O lendário crítico Kenneth Tynan, ao escrever sobre Brecht, logo depois da morte do autor alemão, destacava a onipresença do dramaturgo na Alemanha no fim dos anos 50. Ele bateu um recorde: pela primeira vez na história do teatro alemão, um dramaturgo nativo contemporâneo estava entre os quatro cujas obras foram mais representadas nos países de língua germânica. Shakespeare, como sempre, ocupou o primeiro lugar, com 2674 representações, seguido por Schiller, com 2 mil, Goethe, com 1200 e Brecht, com 1120 (Molière, B. Shaw e Hauptmann, nesta ordem vieram a seguir), contou Tynan. Hoje Brecht já não é tão encenado assim, seja na Alemanha ou no mundo, até porque suas peças são objeto atualmente de grande divergência por direitos autorais.
Um autor como ele, porém, sempre conseguiu passar, com louvor, por momentos de ostracismo e até nestes criava obras-primas, como no Soneto da Emigração, um de seus raros momentos de lamento pessoal durante os 15 anos de exílio que lhe obrigou o nazismo: Expulso do meu país, tenho que ver agora / como abrir uma nova tenda, algum lugar onde possa/ vender o que eu penso./ Tenho que voltar a percorrer os velhos caminhos,/ trilhados pelos passos dos que perderam toda esperança!/ Já em marcha, não sei entretanto que caminho tomar./ Para onde vou, ouço: soletre o seu nome!/ Ah, este nome que já foi célebre!
(matéria publicada no caderno EU&Fim de Semana, do jornal Valor Econômico, 17/06/2005)
enviada por Jorge Felix
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