18/04/2007 00:41
O homem político em Shakespeare
Livro de Bárbara Heliodora aborda o poder na obra do célebre dramaturgo inglês
Ser líder é o desejo de um grande número de profissionais. Ninguém que vislumbre a ascensão ao topo, onde terá o poder de decisão, pode desprezar a leitura dos textos de William Shakespeare (1564-1616). Suas peças políticas foram negligenciadas por anos em benefício das comédias ou de obras supostamente apenas românticas, sobretudo Romeu e Julieta um texto eminentemente político.
Pouquíssimos autores daria para contar nos dedos de uma só mão conseguiram elaborar um conceito de liderança com contribuições tão significativas para o homem público e, diante de escândalos igualmente escabrosos no mundo corporativo, também para o executivo. O que é ser um líder na visão deste autor universal ? Como pode-se construir um ? Quais as artimanhas do poder e como fazer para mantê-lo ? Como tornar-se um líder admirado e obedecido sem usar a força ou a guerra ? Shakespeare tem as respostas. As melhores respostas.
O princípio básico da boa análise política portanto da liderança - é o estabelecimento de regras elementares da democracia como paradigma único e imutável. A partir daí, o analista experimenta as diretrizes de qualquer governo em seu figurino prêt-à-porter. Se algo cair malajambrado, o mandatário terá sido reprovado pelos critérios que levam ao bem-estar comum.
Shakespeare nunca conheceu a democracia pelo menos na plenitude que a entendemos em nossa era contemporânea -, mas, como analista político, uma vez mais, foi aprovado pela História ao definir claramente, em quase todas as suas 37 peças, os parâmetros para o bom rei. Em sua obra é tão fácil chegar a este diagnóstico como assinar em baixo do amor recíproco dos jovens amantes de Verona.
Esse interesse de Shakespeare pela função política do Homem o torna leitura obrigatória para quem analisa a liderança, depende dela, ou quer alcançá-la. O teatro elisabetano tem sua mais produtiva fase num momento peculiar da Inglaterra, o fim da era medieval para a época da formação do Estado, os anos das grandes expedições e de um nacionalismo exacerbado que ao mesmo tempo provocava adoração e vigilância no povo diante dos monarcas.
Ao reeditar O homem político em Shakespeare (392 páginas, R$ 44,90), da crítica teatral Bárbara Heliodora, a editora Agir (selo da Ediouro) cumpre uma função quase social neste momento histórico do país. Primeiro pela oportunidade de oferecer aos nossos políticos se é que eles querem uma leitura de imenso caráter didático para lidar com a tão falada democracia e, por conseqüência, com a famosa coisa pública, assaltada pela insaciável corrupção.
Segundo, porque aos 81 anos, Bárbara já traduziu quase a totalidade das peças de Shakespeare e é, sem dúvida, a melhor cabeça para guiar-nos por este terreno e o faz neste seu trabalho com sua maestria impecável de sempre, com a autoridade de quem já trouxe para a língua portuguesa 28 das 37 peças do bardo. (E, certamente, logo terminará as obras completas porque trata-se de uma work-a-holic apaixonada pelo que faz.)
Há ainda um terceiro motivo para saldarmos a obra: este estudo, tese da autora em seu doutoramento em Artes na Universidade de São Paulo, mereceu uma primeira edição (com o título original A expressão dramática do homem político em Shakespeare) em 1978, pela Paz e Terra, porém, foi quase ignorada pelo mercado livreiro.
Dentro da ampla bibliografia shakespeareana mundial, o livro de Bárbara tem seu lugar e é freqüentemente citado em estudos internacionais, acadêmicos ou não. Agora, é bem provável, pelo momento em que reaparece, que o livro deve ganhar ainda mais destaque por vivermos em meio a mensalões, disputa entre os poderes, desculpas esfarrapadas como as das armas químicas iraquianas para justificar a guerra.
Shakespeare tem muito a falar sobre tudo isso. Bárbara Heliodora esmiuça o pensamento de Shakespeare sobre a política e o exercício do poder nas oito peças históricas: a primeira tetralogia, composta pelas três partes de Henrique VI e por Ricardo III; e a segunda por Ricardo II, as duas partes de Henrique IV e Henrique V sendo que esta ganha contornos específicos por ter sido criada sob forte censura. A primeira tetralogia, como se sabe, foi escrita por um autor jovem e tem como alvo a luta pelo poder do período da Guerra das Rosas.
Embora o foco seja em torno dessas peças, outros textos são inevitavelmente citados com o mesmo peso de mensagens. Em A Tempestade, o governante nos primeiros atos tem poder mágico, que perde no transcorrer da trama. E aí, sim, volta à sua terra para governar. Shakespeare nos ensina que o nível do governante e governado não pode ser diferente e que não se consegue governar com mágicas. Já em Júlio César, há um conflito de idéias e ideais.
A atitude de Brutus mostra onde as pessoas são levadas por suas crenças políticas. Mostra também que não há governante, por mais capaz e honesto, que compense a perda dos direitos dos cidadãos sendo o conceito desses direitos bastante amplo. Brutus, ao participar do assassinato de César, pensa que vai preservar a República, mas precipita o surgimento do Império. Ou seja, as coisas nem sempre saem como previsto e, mais ainda, podem fugir do controle do autor da ação política. E aí vale o parênteses: quando o ex-deputado José Dirceu abriu guerra contra o petebista Roberto Jefferson jamais pensou que o desfecho pudesse ser aquele que o país está testemunhando. É esta a atualidade da leitura dos textos clássicos e universais.
Um líder verdadeiro, para Shakespeare, nos esclarece a autora, é aquele que preocupa-se com o aprendizado do respeito à lei (Henrique IV), resiste às mudanças de caráter que o poder, como uma serpente, tenta impor e lembra que qualquer desvio de conduta do governante tem implicações no coletivo e ainda que o líder (Henrique V) sempre terá o bem (Henrique IV) e o mal (Falstaff) como conselheiros.
Além do texto, Shakespeare presenteia o leitor com sua ardilosa carpintaria teatral. Nas duas partes de Henrique IV, o reino é retratado não apenas nos palácios reais e salões nobres, mas em tabernas freqüentadas por serviçais, prostitutas e vigaristas. Pela primeira vez na história universal do teatro, o andar de baixo aparece no palco.
Mas só sabemos desta curiosidade e de outras mais graças a autora. Bárbara acaba de terminar a tradução de Ricardo III, o pior dos reis, com seus 54 personagens com direito a fala é o maior número de personagens da dramaturgia, superior a qualquer obra de Corneille, Racine ou Molière. Este é o valor de trilhar Shakespeare pelas mãos de Bárbara.
Ela está sempre provando que o bardo nunca teve nada de erudito ou hermético. Suas palavras são as mais comuns, suas imagens são as mais populares da época (como um mingau frio, Quais vitela sem canga, já correm pra norte, sul, leste e oeste). Tão populares que a principal crítica de Ben Johnson lhe fazia era de ser um autor de concessão. Provavelmente porque nos mais de mil lugares do Globe Theater não havia espectador que não captasse as críticas mordazes de todos os textos das 22 peças políticas de Shakespeare.
Neste O homem político em Shakespeare, Bárbara Heliodora além de mapear a obra do bardo, faz ilações e comparações, e garante ao leitor mais do que a compreensão, a reflexão sobre o conteúdo político nas peças históricas do dramaturgo. É um livro para acompanhar as leituras das peças (aliás as 28 traduções de Bárbara sairão daqui a pouco pela Aguilar, em papel bíblia e capa dura). O trabalho da autora empresta outro sabor a leitura das peças, revela como surgiu e o que está por trás das frases do poeta. É inevitável, depois sair em busca dos paralelismos inevitáveis.
Logo depois de Elisabeth mandar executar sua irmã Mary Stuart e depois dizer que não mandou dar a ordem e sentia a dor da morte, Shakespeare escreveu em uma fala de Brutos (Ato II, cena i, de Júlio César): Que nossos corações, quais sábios amos, mandem servos vibrar golpes irados, parecendo, depois, repreendê-los. Qualquer semelhança com governantes que participam de esquemas de corrupção e depois vêm a público para condenar seus correligionários como se nunca tivessem tomado conhecimento de nada, não é mera coincidência. Como dizia o bardo: Poucos homens gostam de falar das faltas e das falhas que com prazer praticam. Essa, sem dúvida, é uma regra que jamais cabe ao homem público desenhado por Shakespeare.
(matéria publicada no jornal Valor Econômico, 23/12/2005)
enviada por Jorge Felix
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