16/04/2007 18:08
Teatro é para ler
O ator Paulo Autran se lembra. O país ainda respirava o ar pesado da ditadura militar. Ele, digamos, militava no antológico grupo Opinião. O texto caiu em suas mãos e logo o seduziu pela vivacidade. Encantado, reuniu alguns atores em sua própria casa, no Rio de Janeiro, para uma leitura. Aproveitou para chamar outras pessoas à guisa de público. Os autores eram perfeitos e formavam a seleção de ouro do teatro político da época: Ferreira Gullar, Armando Costa e Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha. O título do espetáculo, Brasil e Cia, completava a receita de sucesso exigida pelos padrões culturais da época. No fim da leitura, críticas. Sugestões de cortes e de mudanças.
Paulo fez-se de surdo e decidiu ignorar as opiniões de quem tinha ouvido o texto. Eu estava tão confiante naquele momento, que a desprezei e foi um fracasso. Daí em diante, passei a dar grande valor à leitura e sempre faço uma sessão pública antes de decidir pela montagem do texto, afirma o experiente ator.
Até bem pouco tempo, a leitura de textos de teatro tinha essa finalidade quase técnica. Mas o público brasileiro está derrubando o tabu de que no país poucos se interessam pela dramaturgia. No Rio de Janeiro e em São Paulo, multiplicam-se os ciclos de leitura que passaram a integrar a agenda cultural das metrópoles.
Ao contrário da década de 80, quando surgiram alguns eventos do gênero com o objetivo de trazer à tona textos proibidos na época da censura (um dos mais famosos e freqüentados foi o Anos do silêncio, no antigo Teatro da Praia, no Rio), a justificativa para as leituras, agora, são as mais variadas. Além de ajustar textos para encenações futuras, as leituras lançam autores jovens, divulgam a nova e a antiga dramaturgia, resgatam obras esquecidas e ainda alimentam debates sobre temas contemporâneos ou filosóficos.
Um dos espaços pioneiros na adoção dos ciclos de leituras foi a Casa da Gávea, no Rio, onde em 10 anos já foram lidos mais de 600 textos. Sessenta deles foram encenados, inclusive, Por que você não disse que me amava?, de Vera Karam, atualmente em cartaz, dirigido por Paulo Betti, com Cristina Pereira e Rafael Ponzi. O Sesc Copacabana também mantém com religiosa periodicidade seu programa de leituras. Só no último Riocenacomtemporânea, um dos maiores acontecimentos teatrais do país, apenas uma autora, Sarah Kaine, teve três peças lidas no festival.
Em São Paulo, o aniversário de 50 anos do Arena foi comemorado com um ciclo de leitura de 17 autores na série Arena mostra novos dramaturgos, entre eles Mário Bortolloto, Newton Moreno, Gero Camilo, entre outros. Além de espaços tradicionais, como o auditório do jornal Folha de S. Paulo, outros palcos começam a se abrir para a apresentação de textos sem compromisso com o aparato da encenação.
O Centro Cultural Banco do Brasil firma-se neste roteiro. Ambientes alternativos e originalmente com finalidades distintas ensaiam abrigar as leituras teatrais, mostrando a vocação da prática para o circuito cult da cidade.
O próprio Paulo Autran transformou-se no maior desbravador desses espaços. Há alguns meses, fez uma apresentação na Livraria da Vila e depois na Casa do Saber, com Corpos Presentes, do jornalista Dib Carneiro. A Casa do Saber, em pouco tempo, aproveitará as leituras para intensificar a discussão de temas até então explorados apenas nos seus cursos. A madrinha da idéia é a atriz e sócia da Casa do Saber, Maria Fernanda Cândido. Pensamos em criar algo multidisciplinar onde o texto do teatro vai ter presença forte, fizemos algumas leituras como balões de ensaio e a receptividade foi muito boa.
Podemos optar por textos contemporâneos que façam a ponte para o que está sendo discutido nos nossos cursos, afirma Márcio Aurélio, diretor de teatro e conselheiro da Casa do Saber. Com longa trajetória e assinando um dos maiores sucessos da temporada, a peça Agreste, ele tenta explicar a febre das leituras: a literatura dramática é muito pouco divulgada, as pessoas não têm acesso, mas depois que têm gostam e vão buscar mais, até porque se publica pouquíssimo teatro e tem muita coisa acontecendo, tem que dar vazão a essa grande produção.
Esse afunilamento rumo à encenação pode ser um dos maiores incentivadores das leituras. É consenso que, de forma alguma, a leitura substitui a montagem, mas em tempos de censura econômico-financeira o texto escapa de se ver condenado à gaveta. A leitura passa a ser o début possível do autor estreante. A leitura não necessariamente te leva à montar, mas as pessoas passam a prestar a atenção no autor, afirma Mário Viana, premiado autor de Vestir o pai e Carro de paulista.
É difícil reunir um bom elenco para uma montagem, há uma série de variáveis difíceis de se combinar, mas para uma leitura, em um dia, se consegue bons atores dispostos a aceitar, completa.
As leituras são favorecidas ainda por outra imposição da crise de escassez de patrocínios. Exatamente aquela que Paulo Autran não conseguiu escapar: o risco de fracasso com o público.
Embora o número de peças em cartaz seja grande mais de 90 em São Paulo e mais de 40 no Rio -, há muitos projetos para poucos mecenas. O teatro vive uma pindaíba como nenhuma outra forma de arte está passando neste momento. Até mesmo a atriz Fernanda Montenegro admite que seu longo afastamento dos palcos se deve à dificuldade de manter um espetáculo em cartaz.
Portanto, todo cuidado é pouco e nada melhor do que testar a eficácia do texto antes de desperdiçar os recursos. Eu dificilmente vou, mas é melhor a leitura do que montar espetáculos sem acabamento, mal feitos mesmo, e ainda quem faz acha ótimo e a gente tem que ver, afirma a crítica de teatro Bárbara Heliodora. Dificuldades à parte, Paulo Autran acha muito boa a onda das leituras.
Independente do motivo de estar ocorrendo, eu acho que todas as formas de teatro valem a pena. É mais autor despontando, mais debate, mais cultura. Se o público está indo e gostando do teatro assim, ótimo, é mais discussão sobre a vida porque o teatro, em resumo, é isso, festeja.
(matéria publicada na revista Foco Economia, 2004)
enviada por Jorge Felix
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