Foto: Biô Barreira

Jorge Felix é jornalista, 40 anos, trabalhou por quase 10 anos no Jornal do Brasil, onde foi repórter especial em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. Foi editor-assistente de Política da revista IstoÉ; colunista do portal AOL, repórter de economia dos telejornais Bom dia, Brasil e Jornal da Globo e coordenador de produção do Jornal Nacional. Na Editora Globo, foi um dos criadores da revista Quem, da qual foi redator-chefe. Na TV Cultura, implantou e coordenou o Núcleo de Comunicação da Fundação Padre Anchieta. Foi sócio da editora Barcarolla. Desde abril de 2006, integra o staff de editores da Letras&Lucros. Também escreve nas revistas Update (Amcham), ValorInvest e no jornal Valor Econômico.

17/05/2007 17:24

Clássicos & Economia




(Paulo Autran, em O avarento, de Molière)

A tarefa do mundo moderno é afastar o ser humano do rústico. Se este mundo é o da cultura e se este ser é um leitor, será cada vez maior a distância entre o hábito de leitura e os clássicos. Há uma avalanche sobre cada um de nós a impedir a aproximação com as obras marcantes da Humanidade. A vida fast e non stop enterra o homem atual na ansiedade da informação. No entanto, esta informação é aquela produzida ontem, no máximo, anteontem ou, quiçá, on line. Tempo é dinheiro e não há tempo a perder.
Estar bem informado é estar a par do último tudo – o último filme, o último livro, a última notícia. Se por um lado, a atualização é vital para garantir a sobrevivência – principalmente no mercado de trabalho -, por outro, a quantidade de informação nova demanda um background de grande capacidade. Caso contrário, é como semear no terreno árido. A leitura dos clássicos, portanto, passa a ser condição indispensável para entender a modernidade.
É preciso rigor na seleção do que há de realmente original em tantas formas vendidas como inéditas. Quase sempre são apenas ferramentas para atender à necessidade de imediatismo. Os clássicos, não. Sua confecção depende do tempo de reflexão e, talvez, tenha sido isso que permitiu aos autores dizer o que nunca havia sido dito de uma maneira que nunca havia sido escrita. Definitiva.
Com uma dose generosa de otimismo, o escritor cubano naturalizado italiano Ítalo Calvino (1923-1985) disse que “clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘Estou relendo’ e nunca ‘Estou lendo’”. Por isso, Calvino marcou o terreno para um leitor de clássicos. Deixou de fora os mais jovens. Para ele, nesta idade a leitura das obras fundamentais seria apenas um “primeiro encontro”. Um clássico, segundo Calvino, é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.
O leitor duvida? Peguemos a economia como exemplo. Escolha-se aleatoriamente “O mercador de Veneza”, de William Shakespeare (1564-1616). Experimente ler a história de Antônio e Shylock aos 20, aos 30 anos e daí por diante a cada dez anos de sua vida. Se seu interesse é economia, descobrirá que Shakespeare, no século 17, colocou nesta comédia romântica sobre a conquista da felicidade, todos os conceitos modernos de teoria econômica. E moderno aqui entenda-se século 21, globalização inclusive.
Como? Pergunte ao jornalista Thomas Friedman em “O mundo é plano” qual foi o primeiro estágio da globalização? Resposta: os grandes descobrimentos. E Shakespeare viveu nesta época. “O mercador” também fala de hedge, diversificação de investimentos, contratos, governança corporativa (a necessidade de transparência e confiança para garantir capital mais barato) e até mesmo, ou sobretudo, da felicidade e o dinheiro.
A peça discute o quanto de sacrifício se é capaz de fazer para se alcançar a felicidade – e o dinheiro está nessa. Aliás, Shakespeare explora o dinheiro como tema em outra peça fundamental, “Timão de Atenas”, recentemente montada pelo ator Renato Borghi. “Timão” foi a última tragédia do bardo inglês, pelo menos assim foi incluída no primeiro folio, de 1623. É um texto considerado inacabado e escrito entre 1608 e 1609, mas obrigatório para quem, hoje, lida com o dinheiro – seu ou de outro.
A peça traz inúmeras lições para os gestores de private banking, administradores de fortunas, porque Timão ouve a todos no seu período de bonança menos seu gerente financeiro que era, naquela Atenas, o mordomo. “É pena ser tão cega a mão aberta pra não ter o infeliz a dor que é certa”, diz o criado para si mesmo quando vê seu patrão surdo a seus apelos e benevolente com jantares, festas e presentes para os amigos.
Até o personagem Apemantus, o filósofo, com toda a sua arrogância, prepotência e acidez é ouvido sempre, mesmo que apenas para alimentar a discordância. O mordomo nem isso. Timão só o escuta quando está na mais profunda inadimplência que resulta de seu hedonismo. “O tema principal de Timão é a misantropia, oriunda do desapontamento do protagonista com todos aqueles supostos amigos que o cercavam e se locupletavam com sua generosidade enquanto ele foi rico, mas se recusam a ajuda-lo quando ele se vê falido”, explica a crítica de teatro Bárbara Heliodora, cujas traduções de Shakespeare acabam de ser publicadas em rica edição da Aguilar, em papel bíblia e capa dura – como convém aos clássicos e como só esta editora mantém no Brasil.
A economia, só para limitarmos o tema, nos impõe a obrigação de clássicos de infinitos autores. Em “O valor do amanhã”, do economista Eduardo Giannetti, só Adam Smith e Karl Marx são citados mais vezes do que Shakespeare. Mas não é apenas no bardo inglês onde podemos encontrar lições econômicas, evidentemente. Pega-se na estante Fiódor Dostoiévski (1821-1881) com seu “Crime e Castigo”. O dinheiro é o centro do romance, o motivo principal da ação do protagonista e de todos à sua volta. Lá pelas tantas, o autor russo alerta para um conceito bastante atual, o do empreendedorismo.
Diz o personagem Razumíkhin: “Lorotas, não existe espírito empreendedor. O espírito empreendedor se consegue a muito custo, não cai do céu, de graça. Há quase duzentos anos nos desacostumamos de qualquer empreendimento... As idéias, admitamos, realmente andam por aí e existe um desejo, ainda que infantil, de fazer o bem; e se encontra até honestidade, apesar de haver-se juntado em torno dessa questão um sem-fim de trambiqueiros; no entanto, espírito empreendedor mesmo não existe! O espírito empreendedor custa caro.”
Dostoievski publicou isso em 1866. Nada mais atual. Até porque o especialista Paulo Bezerra, tradutor do original russo, nos informa que a inspiração do autor foi a reforma econômica do czar Pedro, o Grande (1689-1725) que, segundo Dostoievski, criou um abismo na Rússia entre a sociedade ilustrada e o povo. Essa distância teria sido fruto da chamada “europeização” daquele país incentivada pelo governante.
Embora as livrarias estejam repletas de lançamentos sobre o dinheiro, é possível entender mais sobre a influência da moeda nas relações humanas lendo Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Em “A historia do dinheiro”, o antropólogo Jack Weatherford considera a peça “um dos tratados mais interessantes” sobre o surgimento do papel-moeda. O pacto com o demônio e a felicidade originada a partir da posse da “folha enviada do céu” descrevem a relação do Estado com seu poder de emissor de moeda ao mesmo tempo em que mostram os efeitos do mal uso do dinheiro na sociedade e o perigo dos sedutores gastos públicos.
Molière (1622-1673) usou e abusou daqueles que têm o dinheiro em toda a sua obra. Quase sempre oferecendo panorama de como a sociedade constrói o ambiente de negócios. Infelizmente, sua visão do mundo no século 17 resistiu ao 21. Em “O avarento”, recentemente montada pelo ator Paulo Autran, percebe-se como a pressão pelo ter corrói os mais nobres sentimentos e compromete o ser. Harpagon nunca conseguiu ser um pai, um marido, um amigo ou um amante. A única coisa que consegue ser é dono de alguma coisa.
Harpagon é uma caricatura e torna-se ainda mais cômico quando rouba aveia de seus cavalos ou quando sua aversão constitucional à palavra “dar” obriga-o a usar a saudação “eu lhe empresto um bom dia”. Bárbara Heliodora observa que por mais risível que Harpagon possa ser, há uma carga de seriedade, de repúdio profundo a mais esse exemplo de desrespeito aos valores humanos, sem dúvida responsáveis pelo fato de a obra de Molière ser – merecidamente – muito mais consagrada do que a de Plauto, que inspirou o autor francês.
Neste árduo caminho na escolha dos clássicos é preciso de ajuda ou incentivo de especialistas. Os intelectuais e o mercado editorial têm sido benevolentes. Além de Calvino, outros autores têm elaborado as famosas listas de livros indispensáveis. Ninguém o fez com melhor análise do que o crítico americano Harold Bloom em três livros “Como e porque ler?”, “Um mapa da desleitura” e “Onde encontrar a sabedoria?” (todos da Ed. Objetiva). Bloom prega que a sabedoria é uma imposição para a felicidade e aponta os clássicos como a melhor fonte. A literatura, segundo ele, é capaz de provocar um confronto do ser humano com ele mesmo e, assim, arrancar dele a solução para seus próprios males. Os clássicos teriam um poder ainda maior.

(matéria publicada na revista do Banco Fator, edição 2, abril/2007)

enviada por Jorge Felix






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