18/10/2007 15:13
Paulo Autran e a arte da generosidade
Foto: Edi Pereira
As homenagens a Paulo Autran, invariavelmente, estão sustentadas pela justificativa de ele ter sido um homem de teatro. Por mais que amigos e artistas procurassem traduzir esta definição, sobretudo no momento da despedida, é preciso esclarecer ao público sua importância nos bastidores para que se possa saber, em toda a sua plenitude, porque Paulo era especial.
É necessário divulgar ao público como a dedicação deste ator extrapolava as fronteiras imaginárias do palco. Ia muito além daquilo que o espectador conseguia ver e está também em muitas montagens que nunca foram acompanhadas pelo crédito ao seu nome.
Esta militância a favor do teatro o diferenciava completamente de seus pares. Ele era realmente preocupado com a manutenção de sua arte. Era insatisfeito com a limitação do discurso. Buscava a ação conseqüente.
Dedicava-se a preservar sua arte como um ecologista em defesa de um animal em extinção. Empenhava seu dia-a-dia a lutar por ela, nesta guerra que parecia sem fruto, como dizia Drummond. O público precisa saber como era essa batalha anônima. Uma parte dela os fãs conhecem, embora possam jamais percebê-la pela sutileza da tática: Paulo era um entrevistado incansável. Dificilmente recusava o convite para conceder uma entrevista.
Era assim que, mesmo sem fazer televisão, a usava exaustivamente para promover o teatro. Ia à televisão, quase toda semana, para desdizê-la, difamá-la em benefício de sua arte. Buscava todas as câmeras e gravadores para dizer que teatro era melhor.
Não interessava se era jornal de bairro, revista de empresa ou programas de grande audiência. Paulo comparecia sempre com a mesma mensagem: Vamos ao teatro. Poucos, mesmo entrevistadores, percebiam essa jogada do velho monstro dos palcos. Enquanto muitos de seus pares selecionam veículos, ele era radicalmente democrático. Onde pudesse levar aquela mensagem, o fazia.
Foi assim que tornou-se o mais entrevistado dos atores. Isso lhe tomava um tempo enorme. Paciência. Era uma mídia espontânea, nunca medida, imensa, e também nunca vista com outros artistas, sobretudo aqueles que estavam tantos anos longe de uma novela de grande audiência. Mais: entre artistas idosos.
Este, porém, era um ponto menor na grande guerra. A batalha maior era a formação de novos autores. O valor ao texto, a adoração ao autor, a leitura e a pesquisa intensa e insaciável são as lições maiores de Paulo aos seus colegas de teatro. Por incrível que pareça, isso o diferenciava. Se o brasileiro lê pouco, o ator é apenas mais um brasileiro.
Constitui tarefa hercúlea no Brasil fazer com que um ator ou atriz leia um texto e ofereça comentários. Principalmente, atores jovens. Caso mais grave é o de autores desconhecidos. No Brasil, o ator está sempre atrasado para a próxima gravação. Paulo abdicou deste problema. Assumiu para ele o compromisso com a função profissional e social de formação de novos autores. Os atores e atrizes, em geral, assumem a atitude de que o texto deve-lhe ser uma espécie de oferenda. Sempre perfeito e acabado.
Paulo esteve profundamente preocupado com isso. Ele sabia que essa postura matava autores. Era, portanto, improdutiva para o teatro. Sua ação em benefício do texto incluía a popularização das leituras dramáticas abertas. Não montava nenhuma peça, salvo clássicos, antes de uma leitura pública. Ficava atento às críticas desde que as ignorou na montagem de Brasil e Cia., na década de 70, e, além de dificuldades com a censura, amargou um grande fracasso com o texto de Vianinha, Ferreira Gullar e Armando Costa. Mas, admitia, sua maior intenção nas leituras era oferecer instrumental para beneficiar a dramaturgia.
Ao contrário da imensa maioria de seus colegas, Paulo lia todos os textos que chegavam a sua casa. Em menos de 48 horas (!) telefonava com seu parecer. Não deixava nenhum autor sem suas observações. Se gostava, perguntava imediatamente se o autor jovem e totalmente desconhecido, do qual ele nunca soube a origem tinha outros textos.
Se não gostava, incorporava o personagem que sonhou fazer, o diplomata, e sua educação ao emitir o parecer era de uma elegância inigualável. Elogiava uma simples vírgula para não desestimular o autor e apresentava, depois, suas armas para proteger o palco de um texto precário.
Nenhum outro artista neste país tem esta paciência e dedicação. Isso fez de Paulo um ator de muito mais do que 90 peças. Ele está espalhado por incontáveis montagens pelo país nesta e nas próximas gerações. Depois de ter um texto lido e rabiscado por ele, o autor se sentia com o compromisso de continuar, de melhorar, de buscar a todo o custo a sua aprovação. Isso fez muitos autores suarem sobre os teclados.
E Paulo era um soldado persistente. Ligava depois e perguntava se o autor havia feito mudanças, quando uma nova versão lhe seria entregue.
Quem tiver curiosidade, basta perguntar aos autores da recente maratona dos Satyros, o que Paulo mudou em suas vidas. Quase todos ali, em algum momento, tiveram a carreira marcada com x de Paulo sobre alguma coisa que eles escreveram em alguma peça. Nunca mais foram os mesmos. Ficaram melhores. É este homem de teatro, atuando mesmo sem buscar ouvir aplausos, que o país perdeu e a arte acusará a falta.
enviada por Jorge Felix
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