Foto: Biô Barreira

Jorge Felix é jornalista, 40 anos, trabalhou por quase 10 anos no Jornal do Brasil, onde foi repórter especial em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. Foi editor-assistente de Política da revista IstoÉ; colunista do portal AOL, repórter de economia dos telejornais Bom dia, Brasil e Jornal da Globo e coordenador de produção do Jornal Nacional. Na Editora Globo, foi um dos criadores da revista Quem, da qual foi redator-chefe. Na TV Cultura, implantou e coordenou o Núcleo de Comunicação da Fundação Padre Anchieta. Foi sócio da editora Barcarolla. Desde abril de 2006, integra o staff de editores da Letras&Lucros. Também escreve nas revistas Update (Amcham), ValorInvest e no jornal Valor Econômico.

31/03/2008 22:07

A temporada shakespeariana de 2008

No dia 23 de abril, comemora-se 444 anos de nascimento de William Shakespeare (1564-1616). Se concordarmos com alguns pesquisadores, que assumem a coincidência de o autor inglês morrer no dia de seu aniversário, depois de uma noitada com Ben Jonson e outros amigos, serão também 392 anos de morte.

O tempo, porém, insiste em rejuvenescer o maior dramaturgo da história – o único considerado universal. Grande parte da jovialidade deste cidadão da pequena cidade de Stratford-on-Avon deve ser atribuída ao trabalho de encenadores contemporâneos.

Para eles, sempre há um novo Shakespeare a ser descoberto. Nesta temporada, mais uma vez, diretores mergulham na obra do poeta como escafandristas a procura de tesouro. Exploraram algo ainda – por incrível que pareça – adormecido. Quase sempre conseguem alcançar algo novo.

Cimbeline, o rei da Britânia; Othelo, o mouro de Veneza; A megera domada e, claro, Hamlet, príncipe da Dinamarca comparecem este ano nos palcos brasileiros para comprovar a tese de que Shakespeare fez uma obra só comparável à Bíblia – segundo o crítico norte-americano Harold Bloom – e, ao mesmo tempo, foi o mais bem-sucedido profissional do entretenimento. “Javé, Jesus, Alá falam com autoridade, e, embora em um sentido diferente, o mesmo ocorre com Hamlet, Iago, Lear e Cleópatra. A persuasão em Shakespeare é maior porque ele é mais fértil; os recursos da retórica e da imaginação dele estão além dos de Javé, Jesus e Alá, afirmação que soa mais blasfema do que, na verdade, o é”, escreve Bloom.

É este fascínio que as 37 peças deste filho de John e Mary exercem, principalmente, sobre os diretores. Aos poucos, o cânone shakespeariano começa a ganhar amplitude nos palcos, com ousadias até há algum tempo inimagináveis e, curiosamente, nesta exploração sem fim, os encenadores aceitam correr mais riscos. O resultado, segundo críticos e especialistas, tem sido compensador.

Uma das maiores comprovações é a encenação de Cymbeline (aqui usando a grafia adotada pela montagem, o leitor encontrará ainda Cimbelino e Cimbeline) pela companhia inglesa Kneehigh Theatre, que, infelizmente, cumpriu curta temporada no Teatro Popular do Sesi, a convite do British Council.

Se algum espectador deixar-se intimidar pela fila na Avenida Paulista e a dificuldade de comprar o ingresso, perderá um dos espetáculos mais elogiados por críticos e especialistas shakespearianos.

A professora carioca Bárbara Heliodora, maior autoridade na obra do autor no Brasil com mais de 20 peças traduzidas, até agora está inconformada com a exclusividade paulistana que a impediu de assistir a peça. Mesmo com ponderações aqui e acolá, os estudiosos e militantes em Shakespeare foram obrigados a renderem-se à concepção e adaptação da diretora Emma Rice para uma das peças mais amaldiçoadas do autor – por sua complexidade – e menos encenadas em todo o mundo.

“A montagem é ousada, como tudo o que a famosa companhia faz. A concepção paródica é instigante; o jogo de cena é criativo e inteligente; a música é cativante e impecavelmente executada; a tradução é coloquial e condiz com a concepção atualizada da montagem”, afirma José Roberto O’Shea, prêmio Jabuti 2003 por sua tradução da peça (publicada pela editora Iluminuras). No entanto, continua O’Shea, “conforme costuma ocorrer no caso de apropriações "radicais", a dificuldade reside em apropriar sem reduzir”.

Se, de um lado, a paródia e a caricatura conferem relevância à ação, atraindo e prendendo o espectador contemporâneo, acredita o tradutor, de outro, a re-escritura do texto, peca por simplificação de situações e personagens, o que, a seu ver, é “lamentável, especialmente em se tratando de Shakespeare”. Contudo, não resta dúvida, o espetáculo tem “concepção definida” e O’Shea considera a montagem “imperdível”.

Emma Rice transforma uma ação de 1066 em uma ópera-rock. O cenário, a música ao vivo, as composições e a adaptação do texto interferem sem roubar da montagem a poesia da peça original. É bom lembrar que Cimbeline é de uma fase madura do autor, quando Shakespeare começa a arriscar na musicalidade, possível depois que as encenações eram no Blackfriars, um teatro com mais possibilidades. Se os personagens perdem em consistência, como destaca O’Shea, PhD em Literatura Inglesa e Norte-americana pela University of North Carolina, a montagem ganha em compreensão. “O método de composição de Cimbeline é o mesmo que Shakespeare empregou na grande maioria de suas obras: amalgamar várias histórias em uma única”, explica a professora Marlene Soares dos Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O problema, continua ela, é que em Cimbeline embora seja possível identificar as partes, não se chega a um acordo quanto ao sentido do todo.
O mérito de Emma Rice, talvez, seja oferecer algo palatável e, ao mesmo tempo, muito divertido. A ação se desenrola a partir de três histórias principais: uma de amor entre a princesa Imogen e o plebeu Posthumus, crente da fidelidade da esposa; outra de guerra entre Roma e a Britânia pelo pagamento de tributos devidos por esta; uma terceira de seqüestro dos dois jovens príncipes por um banido do reino. Shakespeare abusa de uma causalidade enganadora para embaraçar essa trama sinuosa. De tal modo que constrói um desafio e tanto para os encenadores. Mas Rice venceu colocando uma drag-queen no palco, tênis All Star nos príncipes, recursos cênicos de imensa criatividade – como um carrinho de controle remoto – e muito bom-humor.

E qual Shakespeare novo Rice descobriu? Ela viu um Cimbeline como uma Bela Adormecida esperando um despertar, um conto de fadas, uma peça sobre família, sobre o lugar de onde viemos, sobre quem somos e como achamos nosso caminho de volta para casa. “Não há nada de arcaico ou estranho nesta peça”, afirma. “Fora do palácio há um mundo inteiro de estranheza. Um mundo onde os meninos aprenderam a caçar e cantar, onde um pai adotivo dá mais amor e afeto do que o pai biológico jamais poderia imaginar em oferecer”, conclui a diretora.

A descoberta de um outro Shakespeare ou de seu próprio Shakespeare é sempre o que atrai. Sete anos depois de explorarem Hamlet, a dupla Diogo Vilela e Marcus Alvisi debruça-se agora sobre Otelo com a esperança de, a partir do trabalho especial dos atores do elenco, oferecer material para o público captar um outro lado de uma das mais famosas tragédias shakespearianas. A peça está em cartaz no Teatro Sesc Ginástico, no centro do Rio. Diogo escolheu viver Iago, o soldado desprezado do exército de Otelo que, por vingança, o envenena com a falsa intriga da traição de Desdêmona.
Mais uma peça de traição? Mais um pai a escolher o destino das filhas? Mais um romance encerrado em morte? Não. A riqueza de Otelo está na construção dramática dos personagens e em seus sofisticados sentimentos, nobres e mesquinhos. Neste momento em que a política, as empresas e quase todas as relações pessoais são contaminados pela competição sem escrúpulo imposta, acreditam alguns, pela luta para sobreviver ao modelo capitalista, a turbulência de conflito de valores em Otelo impõem-se atualíssima.

Diogo descobriu mais: “É uma peça mais do que necessária de ser montada hoje não só pela demonstração de seu aspecto moral, que nos faz refletir sobre nós mesmos, mas também pela volta quase eterna da dificuldade existente em nós, seres humanos, de nos preocuparmos com os outros”. Para Diogo, chama a atenção a impossibilidade de sobrevivência no mundo de hoje de alguém como Otelo, um líder que, por ser puro mesmo sem ser ingênuo, por acreditar na boas intenções, descarta totalmente a chance de qualquer maldade humana. Otelo, porém, é bom que se diga deixou-se levar pelas boas referências de Iago, conhecido em Veneza por sua honestidade. Shakespeare nos diz que esta, também, pode ser uma qualidade efêmera.

Outro encenador que volta a Shakespeare, com estréia no dia 30 de maio, noTeatro Sergio Cardoso, em São Paulo, é Cacá Rosset, diretor do Teatro do Ornitorrinco. Para comemorar os 30 anos do grupo, Cacá escolheu a montagem de A megera domada. É a terceira peça do autor encenada pelo Ornitorrinco – em 1991, montou Sonho de uma noite de verão, que participou do New York Shakespeare Festival, no Central Park; e A comédia dos erros, também apresentada em Nova Iorque. A bandeira do Ornitorrinco é “Shakespeare para todos”. Segundo Cacá, este seria o viés contemporâneo mais importante: resgatar o caráter popular do autor inglês.

Ele lembra que Shakespeare encenava suas peças, inicialmente, no fundo das hospedarias, em palcos improvisados e móveis (os pangeants) para uma platéia heterogênea. Portanto, o sucesso dependia de habilidade na carpintaria do texto e simplicidade. As imagens em Shakespeare eram de ampla e fácil compreensão pela platéia que ia de nobres a bêbados barulhentos. “É importante estabelecer um diálogo vivo, tirar o tom museológico, fóssil, intocável da obra do Shakespeare porque ele não era nada disso, era teatro, embora alguns acadêmicos protestem, é necessário trazê-lo para o espectador contemporâneo, tirar o pó”, sentencia Cacá. “Você pode comparar Shakespeare com a bíblia, mas jamais encarar sua obra como um livro religioso.”

Em sua A megera domada, o diretor colocará Catarina, a noiva
rebelde, contrária a atender a decisão do pai de casá-la com lutando telecacht com o pretendente Petrúcio. Os atores Christiane Tricerri e Hélio Barbosa estão fazendo curso de luta livre. Isso é o que o irreverente Cacá chama de “desmumificar” Shakespeare. “Não é ser infiel, é trazer o que ele quis dizer para aquela platéia naquele tempo, para os nossos dias. Ao longo dos séculos foram acoplando uma espécie de tradição cultural à obra dele e formou-se uma crosta, uma casca que impede o diálogo do espectador de hoje com as paixões, os sentimentos que são latentes no original e precisam ser resgatados”, explica.

Como demonstração desta fidelidade citada por Cacá, o Ornitorrinco, provavelmente, fará uma das poucas montagens de A megera preservando boa parte do prólogo. Só isto – e 25 atores em cena - já faz confere à esta produção um grau de obrigatoriedade. Poucos diretores optam por esta cena, em geral simplificada ao extremo, comprometendo uma característica marcante do autor: a metalinguagem. Em toda sua obra, Shakespeare usa o recurso do teatro dentro do teatro. Algumas vezes para enobrecer a sua arte, como em Hamlet, outras para rir de si mesmo como em Sonho de uma noite de verão ou nas peripécias e citações de suas obras anteriores que podem ser facilmente encontradas em Cimbeline. No prólogo, o funileiro Sly que nunca bebeu vinho na vida é travestido em nobre e assiste à montagem de uma comédia e aí começa a peça propriamente dita.

Sly, embora empurrado compulsoriamente ao papel de “fino”, é a caricatura dos novos ricos. Mas o importante aqui é que Cacá descobriu em suas aventuras escafandristas que na matriz de A megera, a peça The taming of a shrew (esse texto era considerado desaparecido, mas agora surgiu uma versão), o personagem equivalente a Sly volta no final, como despertando de um sonho. O diretor ainda testa nos ensaios a possível adoção desta forma na sua montagem. Sly retornaria para dizer que, depois de ver a peça, aprendera a domar uma mulher.

A megera domada é sempre apontada como um texto machista já que Catarina termina com um discurso de submissão ao homem e reconhecimento de grande inferioridade da mulher (“É um vexame a mulher ser tão ingênua,/ fazer guerra e não implorar a paz,/ Ou aspirar mando e supremacia/ E não amar, servir, obedecer.”) Segundo Bárbara Heliodora, o que sustenta essa falsa afirmação é a violência entre o casal sempre sublinhada pelos encenadores. “A única agressão física que está em Shakespeare é o tapa que Catarina dá em Petrucio e ele ameaça bater nela se ela repetir o gesto”, afirma. Mas completa: “Por outro lado, não podemos nunca esquecer que ele escreveu no final do século 16 e no princípio do 17, e que, portanto, sua visão de mundo não pode ser a de nosso tempo”.

Qual o tema da peça, então? “É o triunfo dos negócios”, responde Cacá. “É uma comédia de guerra dos sexos, sim, mas com a visão pré-freudiana.” Ele lembra que a mulher ainda hoje está numa posição inferior na sociedade, no mercado de trabalho, principalmente. Mas a peça é muito mais sobre os arranjos em benefício do dinheiro, sobre o que o homem é capaz de fazer pelo dinheiro. Petrucio ignora todas as recomendações de que Catarina era uma megera, pois, precisava arrumar uma noiva rica. Diz isso com todas as letras. “Segundo as regras da antiguidade, essa era a primeira obrigação de qualquer rapaz”, lembra Bárbara.

Talvez a estréia mais esperada na temporada shakespeariana seja o Hamlet, em maior, no Teatro Faap, em São Paulo. Em função de seu protagonista. Nada mesmo do que o ator do momento: Wagner Moura. Depois de seu capitão Nascimento, o protagonista do filme Tropa de elite escolheu um dos maiores ícones de Shakespeare para voltar aos palcos. Há dois anos, ele e Giulia Gam encharcaram-se no palco com Dilúvio em tempos de seca, vivendo o escritor e a modelo presos num pequeno banheiro. A direção era de Aderbal Freire-Filho, que agora continua ao lado de Wagner nesta aventura hamletiana. A julgar pelos últimos trabalhos do encenador, no Teatro Poeira, no Rio, o público conhecerá mais um Shakespeare em plena juventude.

enviada por Jorge Felix






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
Blog do Jofe - Todos os Direitos Reservados