13/12/2008 15:19
Hamlet, este crânio não é do pobre Yorick
Polonês realiza desejo póstumo de ter seu crânio em peça de Shakespeare
Andre Tchaikowsky era um judeu polonês que escapou do Holocausto.
Agência O Globo/EFE - 26/11/2008 - 09h59
Reprodução
LONDRES - O desejo expressado no leito de morte por um pianista polonês de que seu crânio fosse usado na cena mais famosa da peça "Hamlet", do inglês William Shakespeare, tornou-se finalmente realidade em um palco britânico.
Andre Tchaikowsky, um judeu polonês que escapou do Holocausto e que morreu de câncer no Reino Unido em 1982 aos 46 anos, doou seu crânio com esse objetivo à Royal Shakespeare Company, que o conservou em um estojo.
O crânio do músico foi finalmente usado, 26 anos após a morte do pianista, pelo jovem ator britânico David Tennant em uma recente produção de "Hamlet" em Stratford-upon-Avon, a cidade natal de Shakespeare, informa hoje o jornal "The Times".
Tchaikowsky, cujo nome real era Robert Andrzej Krauthammer, foi tirado da Polônia pela avó quando tinha 7 anos, com a ajuda de documentos de identidade falsos.
Os pais do pianista morreram com outros milhares de judeus no gueto de Varsóvia.
Em seu testamento, o músico, que nunca se casou, doou seus órgãos à ciência, com exceção do crânio, que decidiu oferecer à Royal Shakespeare Company "para uso em representações teatrais".
David Howells, responsável do arquivo da Royal Shakespeare Company, confirmou ao jornal que era a primeira vez que o crânio era utilizado em uma montagem de "Hamlet", mas foi decidido não comunicar esse fato ao público até o fim das representações.
Para poder usar o crânio na famosa cena de "Hamlet", a companhia teve que obter uma permissão da agência responsável dos tecidos humanos - a Human Tissue Authority -, pelo fato de o crânio ter menos de 100 anos.
enviada por Jorge Felix
18/08/2008 10:56
Fogo no Cultura piora apagão de teatros
Além de ser lamentável para todos do teatro, artistas, público, produtores e trabalhadores, o incêndio do Cultura Artística irá agravar um grande problema para o setor de entretenimento em São Paulo: a falta de casas de espetáculos.
Sobretudo devido ao lucro dos bancos, há um boom de patrocínio na área teatral nos últimos dois anos, principalmente.
Aos heróicos produtores que sempre ignoram a falta de apoio financeiro somaram-se grandes produções, muitas engavetadas durante anos, e o resultado foi excelente. Espetáculos para todos os gostos, montagens com elencos maiores e grandes produções de textos clássicos, como convém a um país que se queira fazer respeitar na área cultural ou de entretenimento.
Por outro lado, São Paulo vive um apagão de teatros. Faltam salas para tantas produções. Há filas e adiamentos sucessivos de estréias.
A Prefeitura e o Estado deveriam imediatamente promover alguma ação para ampliar o número de salas de espetáculos ou inventar locais novos, como praças, clubes, hotéis para escoar a produção de peças.
Nesta temporada, há mais de cem espetáculos em cartaz em São Paulo e, sem medo de errar, há outros cem em produção aguardando salas para se apresentar.
O Cultura Artística era um teatro polivalente e abrigava até quatro montagens simultâneas. O governo poderia aproveitar sua reconstrução para ampliar ainda mais o espaço deste endereço tão tradicional da arte cênica paulistana.
enviada por Jorge Felix
13/07/2008 19:53
"Fernanda Montenegro é Capitu", o espetáculo do ano!
No dia 17, quinta-feira, às 18h30, estréia o espetáculo do ano! Ou melhor, não estréia, será uma apresentação única. Fernanda Montenegro é Capitu, no qual a atriz vai ler o romance de Domício Proença Filho tem tudo para ser inesquecível. Um marco.
O objetivo deste post é fazer um apelo à Fernanda: não abandone Capitu, muito menos faça desta leitura um privilégio para tão poucos convidados do aniversário de 111 anos da ABL e aqueles que terão a sorte de conquista um ingresso já disputadíssimo e só obtido mediante senha.
O Ministério da Cultura deveria, imediatamente, contratar Fernanda para apresentações em todo o país. Ou alguma boa alma nos departamentos de marketing do setor privado embora sejam poucos que tenham lido Dom Casmurro (aproveitando, trata-se de um romance de Machado de Assis e Machado de Assis é nosso maior romancista sei lá, é sempre bom informar) poderia perceber que esse é o espetáculo que merece carregar uma logomarca e só (para usar a palavra que os departamentos de marketing adoram) agrega ao negócio.
Mas é mais certo torcer para Fernanda encantar-se com a idéia. Pelo menos, levar esta leitura de "Capitu, Memórias Póstumas" para um público maior. Ela sabe que o Brasil precisa.
enviada por Jorge Felix
02/06/2008 13:39
"A megera" circense do Ornitorrinco
A montagem de A megera domada, que estreiou anteontem à noite no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, é imperdível.
A produção comemora os 30 anos do Teatro do Ornitorrinco e seu gigantismo, com 17 atores e 4 músicos no palco, já seriam motivos suficientes para assistir a peça de W. Shakespeare.
Mas Cacá Rosset foi além. A megera do Ornitorrinco é ímpar e garante a diversão. Primeiro, por respeitar o histórico de encenação do mais irreverente grupo em atuação no país.
As mesmas intervenções políticas e a descontração que marcaram a trajetória desta balzaquiana companhia, com montagens shakespearianas sempre bem feitas, estão lá.
Isso, porém, seria pouco para a data tão importante. Cacá ousou. Ofereceu ao público brasileiro a oportunidade rara de ver o prólogo de A megera. A peça, mesmo na Royal Shakespeare Company, tem sempre cortado este trecho típico das encenações do século 16.
O próprio Cacá faz o personagem Christopher Sly, o pobre que é travestido em nobre e convidado para uma viagem pelo teatro. Um típico exemplo da metalinguagem tão admirada e adotada por Shakespeare. Só isso já faz da montagem do Ornitorrinco algo especial.
A direção acerta em adotar a saída circense - tão própria do Ornitorrinco - para os momentos de ingenuidade do texto. Embora algumas interpretações possam estar exageradamente circenses segundo alguns comentários ouvidos no dia da estréia, no balanço, como sempre, o circo sempre é um grande espetáculo. Não é diferente em "A megera" do Ornitorrinco.
enviada por Jorge Felix
02/06/2008 13:33
A arte de rir do silêncio
Quem ainda não viu, está perdendo uma grande comédia: "A festa de Abigaiu".
Um texto irretocável e muito válido em nossos dias de hegemonia da tese "você é o que você tem".
"A festa" é uma daquelas comédias que arrancam o riso da platéia pelo que não diz, pelo silêncio. As lacunas são o melhor e estão todas no lugar certo.
O texto é do inglês Mike Leigh. Direção de Mauro Baptista Vedia.
O elenco está perfeito, com destaques para Ester Lacava (indicada a melhor atriz no prêmio Shell) e Marcos Cesana.
Cesana, aliás, está a mil, depois de Ricardo III, estreiou no filme de Laiz Bodansky e agora ensaia "A alma boa de Set-Suan", na montagem com Denise Fraga. E amanhã estréia em 9MM, na Fox. Grande ator!
Em curta temporada no Teatro Procópio Ferreira, só às quintas.
enviada por Jorge Felix
31/03/2008 22:07
A temporada shakespeariana de 2008
No dia 23 de abril, comemora-se 444 anos de nascimento de William Shakespeare (1564-1616). Se concordarmos com alguns pesquisadores, que assumem a coincidência de o autor inglês morrer no dia de seu aniversário, depois de uma noitada com Ben Jonson e outros amigos, serão também 392 anos de morte.
O tempo, porém, insiste em rejuvenescer o maior dramaturgo da história o único considerado universal. Grande parte da jovialidade deste cidadão da pequena cidade de Stratford-on-Avon deve ser atribuída ao trabalho de encenadores contemporâneos.
Para eles, sempre há um novo Shakespeare a ser descoberto. Nesta temporada, mais uma vez, diretores mergulham na obra do poeta como escafandristas a procura de tesouro. Exploraram algo ainda por incrível que pareça adormecido. Quase sempre conseguem alcançar algo novo.
Cimbeline, o rei da Britânia; Othelo, o mouro de Veneza; A megera domada e, claro, Hamlet, príncipe da Dinamarca comparecem este ano nos palcos brasileiros para comprovar a tese de que Shakespeare fez uma obra só comparável à Bíblia segundo o crítico norte-americano Harold Bloom e, ao mesmo tempo, foi o mais bem-sucedido profissional do entretenimento. Javé, Jesus, Alá falam com autoridade, e, embora em um sentido diferente, o mesmo ocorre com Hamlet, Iago, Lear e Cleópatra. A persuasão em Shakespeare é maior porque ele é mais fértil; os recursos da retórica e da imaginação dele estão além dos de Javé, Jesus e Alá, afirmação que soa mais blasfema do que, na verdade, o é, escreve Bloom.
É este fascínio que as 37 peças deste filho de John e Mary exercem, principalmente, sobre os diretores. Aos poucos, o cânone shakespeariano começa a ganhar amplitude nos palcos, com ousadias até há algum tempo inimagináveis e, curiosamente, nesta exploração sem fim, os encenadores aceitam correr mais riscos. O resultado, segundo críticos e especialistas, tem sido compensador.
Uma das maiores comprovações é a encenação de Cymbeline (aqui usando a grafia adotada pela montagem, o leitor encontrará ainda Cimbelino e Cimbeline) pela companhia inglesa Kneehigh Theatre, que, infelizmente, cumpriu curta temporada no Teatro Popular do Sesi, a convite do British Council.
Se algum espectador deixar-se intimidar pela fila na Avenida Paulista e a dificuldade de comprar o ingresso, perderá um dos espetáculos mais elogiados por críticos e especialistas shakespearianos.
A professora carioca Bárbara Heliodora, maior autoridade na obra do autor no Brasil com mais de 20 peças traduzidas, até agora está inconformada com a exclusividade paulistana que a impediu de assistir a peça. Mesmo com ponderações aqui e acolá, os estudiosos e militantes em Shakespeare foram obrigados a renderem-se à concepção e adaptação da diretora Emma Rice para uma das peças mais amaldiçoadas do autor por sua complexidade e menos encenadas em todo o mundo.
A montagem é ousada, como tudo o que a famosa companhia faz. A concepção paródica é instigante; o jogo de cena é criativo e inteligente; a música é cativante e impecavelmente executada; a tradução é coloquial e condiz com a concepção atualizada da montagem, afirma José Roberto OShea, prêmio Jabuti 2003 por sua tradução da peça (publicada pela editora Iluminuras). No entanto, continua OShea, conforme costuma ocorrer no caso de apropriações "radicais", a dificuldade reside em apropriar sem reduzir.
Se, de um lado, a paródia e a caricatura conferem relevância à ação, atraindo e prendendo o espectador contemporâneo, acredita o tradutor, de outro, a re-escritura do texto, peca por simplificação de situações e personagens, o que, a seu ver, é lamentável, especialmente em se tratando de Shakespeare. Contudo, não resta dúvida, o espetáculo tem concepção definida e OShea considera a montagem imperdível.
Emma Rice transforma uma ação de 1066 em uma ópera-rock. O cenário, a música ao vivo, as composições e a adaptação do texto interferem sem roubar da montagem a poesia da peça original. É bom lembrar que Cimbeline é de uma fase madura do autor, quando Shakespeare começa a arriscar na musicalidade, possível depois que as encenações eram no Blackfriars, um teatro com mais possibilidades. Se os personagens perdem em consistência, como destaca OShea, PhD em Literatura Inglesa e Norte-americana pela University of North Carolina, a montagem ganha em compreensão. O método de composição de Cimbeline é o mesmo que Shakespeare empregou na grande maioria de suas obras: amalgamar várias histórias em uma única, explica a professora Marlene Soares dos Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O problema, continua ela, é que em Cimbeline embora seja possível identificar as partes, não se chega a um acordo quanto ao sentido do todo.
O mérito de Emma Rice, talvez, seja oferecer algo palatável e, ao mesmo tempo, muito divertido. A ação se desenrola a partir de três histórias principais: uma de amor entre a princesa Imogen e o plebeu Posthumus, crente da fidelidade da esposa; outra de guerra entre Roma e a Britânia pelo pagamento de tributos devidos por esta; uma terceira de seqüestro dos dois jovens príncipes por um banido do reino. Shakespeare abusa de uma causalidade enganadora para embaraçar essa trama sinuosa. De tal modo que constrói um desafio e tanto para os encenadores. Mas Rice venceu colocando uma drag-queen no palco, tênis All Star nos príncipes, recursos cênicos de imensa criatividade como um carrinho de controle remoto e muito bom-humor.
E qual Shakespeare novo Rice descobriu? Ela viu um Cimbeline como uma Bela Adormecida esperando um despertar, um conto de fadas, uma peça sobre família, sobre o lugar de onde viemos, sobre quem somos e como achamos nosso caminho de volta para casa. Não há nada de arcaico ou estranho nesta peça, afirma. Fora do palácio há um mundo inteiro de estranheza. Um mundo onde os meninos aprenderam a caçar e cantar, onde um pai adotivo dá mais amor e afeto do que o pai biológico jamais poderia imaginar em oferecer, conclui a diretora.
A descoberta de um outro Shakespeare ou de seu próprio Shakespeare é sempre o que atrai. Sete anos depois de explorarem Hamlet, a dupla Diogo Vilela e Marcus Alvisi debruça-se agora sobre Otelo com a esperança de, a partir do trabalho especial dos atores do elenco, oferecer material para o público captar um outro lado de uma das mais famosas tragédias shakespearianas. A peça está em cartaz no Teatro Sesc Ginástico, no centro do Rio. Diogo escolheu viver Iago, o soldado desprezado do exército de Otelo que, por vingança, o envenena com a falsa intriga da traição de Desdêmona.
Mais uma peça de traição? Mais um pai a escolher o destino das filhas? Mais um romance encerrado em morte? Não. A riqueza de Otelo está na construção dramática dos personagens e em seus sofisticados sentimentos, nobres e mesquinhos. Neste momento em que a política, as empresas e quase todas as relações pessoais são contaminados pela competição sem escrúpulo imposta, acreditam alguns, pela luta para sobreviver ao modelo capitalista, a turbulência de conflito de valores em Otelo impõem-se atualíssima.
Diogo descobriu mais: É uma peça mais do que necessária de ser montada hoje não só pela demonstração de seu aspecto moral, que nos faz refletir sobre nós mesmos, mas também pela volta quase eterna da dificuldade existente em nós, seres humanos, de nos preocuparmos com os outros. Para Diogo, chama a atenção a impossibilidade de sobrevivência no mundo de hoje de alguém como Otelo, um líder que, por ser puro mesmo sem ser ingênuo, por acreditar na boas intenções, descarta totalmente a chance de qualquer maldade humana. Otelo, porém, é bom que se diga deixou-se levar pelas boas referências de Iago, conhecido em Veneza por sua honestidade. Shakespeare nos diz que esta, também, pode ser uma qualidade efêmera.
Outro encenador que volta a Shakespeare, com estréia no dia 30 de maio, noTeatro Sergio Cardoso, em São Paulo, é Cacá Rosset, diretor do Teatro do Ornitorrinco. Para comemorar os 30 anos do grupo, Cacá escolheu a montagem de A megera domada. É a terceira peça do autor encenada pelo Ornitorrinco em 1991, montou Sonho de uma noite de verão, que participou do New York Shakespeare Festival, no Central Park; e A comédia dos erros, também apresentada em Nova Iorque. A bandeira do Ornitorrinco é Shakespeare para todos. Segundo Cacá, este seria o viés contemporâneo mais importante: resgatar o caráter popular do autor inglês.
Ele lembra que Shakespeare encenava suas peças, inicialmente, no fundo das hospedarias, em palcos improvisados e móveis (os pangeants) para uma platéia heterogênea. Portanto, o sucesso dependia de habilidade na carpintaria do texto e simplicidade. As imagens em Shakespeare eram de ampla e fácil compreensão pela platéia que ia de nobres a bêbados barulhentos. É importante estabelecer um diálogo vivo, tirar o tom museológico, fóssil, intocável da obra do Shakespeare porque ele não era nada disso, era teatro, embora alguns acadêmicos protestem, é necessário trazê-lo para o espectador contemporâneo, tirar o pó, sentencia Cacá. Você pode comparar Shakespeare com a bíblia, mas jamais encarar sua obra como um livro religioso.
Em sua A megera domada, o diretor colocará Catarina, a noiva
rebelde, contrária a atender a decisão do pai de casá-la com lutando telecacht com o pretendente Petrúcio. Os atores Christiane Tricerri e Hélio Barbosa estão fazendo curso de luta livre. Isso é o que o irreverente Cacá chama de desmumificar Shakespeare. Não é ser infiel, é trazer o que ele quis dizer para aquela platéia naquele tempo, para os nossos dias. Ao longo dos séculos foram acoplando uma espécie de tradição cultural à obra dele e formou-se uma crosta, uma casca que impede o diálogo do espectador de hoje com as paixões, os sentimentos que são latentes no original e precisam ser resgatados, explica.
Como demonstração desta fidelidade citada por Cacá, o Ornitorrinco, provavelmente, fará uma das poucas montagens de A megera preservando boa parte do prólogo. Só isto e 25 atores em cena - já faz confere à esta produção um grau de obrigatoriedade. Poucos diretores optam por esta cena, em geral simplificada ao extremo, comprometendo uma característica marcante do autor: a metalinguagem. Em toda sua obra, Shakespeare usa o recurso do teatro dentro do teatro. Algumas vezes para enobrecer a sua arte, como em Hamlet, outras para rir de si mesmo como em Sonho de uma noite de verão ou nas peripécias e citações de suas obras anteriores que podem ser facilmente encontradas em Cimbeline. No prólogo, o funileiro Sly que nunca bebeu vinho na vida é travestido em nobre e assiste à montagem de uma comédia e aí começa a peça propriamente dita.
Sly, embora empurrado compulsoriamente ao papel de fino, é a caricatura dos novos ricos. Mas o importante aqui é que Cacá descobriu em suas aventuras escafandristas que na matriz de A megera, a peça The taming of a shrew (esse texto era considerado desaparecido, mas agora surgiu uma versão), o personagem equivalente a Sly volta no final, como despertando de um sonho. O diretor ainda testa nos ensaios a possível adoção desta forma na sua montagem. Sly retornaria para dizer que, depois de ver a peça, aprendera a domar uma mulher.
A megera domada é sempre apontada como um texto machista já que Catarina termina com um discurso de submissão ao homem e reconhecimento de grande inferioridade da mulher (É um vexame a mulher ser tão ingênua,/ fazer guerra e não implorar a paz,/ Ou aspirar mando e supremacia/ E não amar, servir, obedecer.) Segundo Bárbara Heliodora, o que sustenta essa falsa afirmação é a violência entre o casal sempre sublinhada pelos encenadores. A única agressão física que está em Shakespeare é o tapa que Catarina dá em Petrucio e ele ameaça bater nela se ela repetir o gesto, afirma. Mas completa: Por outro lado, não podemos nunca esquecer que ele escreveu no final do século 16 e no princípio do 17, e que, portanto, sua visão de mundo não pode ser a de nosso tempo.
Qual o tema da peça, então? É o triunfo dos negócios, responde Cacá. É uma comédia de guerra dos sexos, sim, mas com a visão pré-freudiana. Ele lembra que a mulher ainda hoje está numa posição inferior na sociedade, no mercado de trabalho, principalmente. Mas a peça é muito mais sobre os arranjos em benefício do dinheiro, sobre o que o homem é capaz de fazer pelo dinheiro. Petrucio ignora todas as recomendações de que Catarina era uma megera, pois, precisava arrumar uma noiva rica. Diz isso com todas as letras. Segundo as regras da antiguidade, essa era a primeira obrigação de qualquer rapaz, lembra Bárbara.
Talvez a estréia mais esperada na temporada shakespeariana seja o Hamlet, em maior, no Teatro Faap, em São Paulo. Em função de seu protagonista. Nada mesmo do que o ator do momento: Wagner Moura. Depois de seu capitão Nascimento, o protagonista do filme Tropa de elite escolheu um dos maiores ícones de Shakespeare para voltar aos palcos. Há dois anos, ele e Giulia Gam encharcaram-se no palco com Dilúvio em tempos de seca, vivendo o escritor e a modelo presos num pequeno banheiro. A direção era de Aderbal Freire-Filho, que agora continua ao lado de Wagner nesta aventura hamletiana. A julgar pelos últimos trabalhos do encenador, no Teatro Poeira, no Rio, o público conhecerá mais um Shakespeare em plena juventude.
enviada por Jorge Felix
26/03/2008 22:02
Cymbeline merece temporada maior
Um apelo: Cymbeline, a montagem da Kneehigh Theater, em cartaz no Teatro Popular do Sesi, precisa estender sua temporada.
Há uma imensidão de espectadores sem ingressos. Minha empregada ficou 4 horas na fila na última sexta-feira.
É lamentável um espetáculo deste calibre cumprir uma agenda tão curta e deixar aqui uma platéia frustrada.
Cymbeline, na opinião de José Roberto OShea, prêmio Jabuti pela tradução da peça (publicada pela editora Iluminuras) uma das mais difíceis de Shakespeare e uma das menos encenadas no mundo é "imperdível".
Conversei com OShea, por email, para uma matéria para o Valor e ele faz apenas algumas considerações a respeito da adaptação, digamos, tão livre.
Mas a criatividade deste grupo precisa chegar a um número maior de espectadores, sobretudo os espectadores do Teatro Popular do Sesi.
A diretora Emma Rice conseguiu desembaraçar as tramas e brincar com as casualidades abusivas de Shakespeare, fazendo de seu Cymbeline algo palatável a qualquer espectador.
O espetáculo veio ao Brasil por iniciativa do British Council e esta instituição bem que poderia apelar ao grupo por uma semaninha a mais em São Paulo.
Emma Rice e seu grupo conseguiram fazer de Cymbeline, como desejavam,uma celebração da criança que existe em todos nós. Uma brincadeira de guerra, traição, esperteza, mas também de amor e afeto, preservando um bom humor impagável.
São Paulo pede mais.
enviada por Jorge Felix
16/11/2007 23:43
"Andaime" e a nossa estupidez
Há muito em comum entre os trabalhadores contemporâneos e os pesonagens da peça "Andaime", de Sergio Roveri, que reestreiou agora há pouco no Teatro Renaissance, em São Paulo.
Ouvindo o diálogo entre os dois limpadores de vidraças de prédios, percebe-se como o trabalho, realmente, forja a nossa visão de mundo.
Nenhum de nós, independentemente do trabalho, neste século 21, pode dizer que está em situação diferente daqueles personagens. Ao ar livre, no entanto, presos. Estamos todos no andaime.
Roveri soube captar esse sentimento.
Lembra-se do início da história capitalista quando o trabalhador é obrigado a enclausurar-se em fábricas. Lembra-se da argumentação de Adam Smith para defender a educação mesmo sem resultado lucrativo aparente, mas apenas para impedir as ações repetitivas impostas pela divisão do trabalho pudessem fazer "do homem tão estúpido e ignorante quanto é possível uma figura humana tornar-se".
"Andaime" vale a pena pelo tema atualíssimo, pelas interpretações ótimas de Cassio Scapin e Claudio Fontora, pela direção de Elias Andreato (vencendo as limitações de espaço) e, sobretudo, para nos deixar sempre impelidos a refletir sobre o que podem fazer ou o que fazemos com nós mesmos.
enviada por Jorge Felix
26/10/2007 19:59
Simpatia e Quixote, peças da semana
(Foto:João Caldas/Divulgação)
O blog de teatro não foi imaginado para comentar peças ou muito menos fazer críticas. Mas os amigos andam reclamando dele e pedindo para dar mais dinâmica nos posts. Ok, vamos lá.
Na medida do possível, vou indicar as peças que gostei porque falar e comentar o trabalho de colegas é sempre complicado.
Fica combinado, então, que faremos apenas a divulgação dos bons espetáculos, sem nenhuma pretensão de crítica.
Um deles é "Dom Quixote de lugar nenhum", adaptação de Rui Guerra, com Edson Celulari e direção de Ernesto Picoolo. (Teatro do Sh. Frei Caneca).
A crítica Mariângela Alves, no Estado, disse que Celulari está abandonado no palco por um elenco irregular.
Mas o espetáculo tem muitas sacadas interessantes, sobretudo de figurinos.
Guerra trouxe Quixote para o cordel do Nordeste. Muitas vezes funciona.
É também uma ótima oportunidade de ouvir Cervantes e sua visão do homem e da esperança.
Outro espetáculo promissor é "Simpatia", dramaturgia de José Rubens Siqueira, direção de Renata Mello, com Xuxa Lopes e Leandra Leal. Estreiou quarta-feira. Acho que vai pegar!
Zé Rubens reuniu as frases e histórias contadas por revendedoras de cosméticos, de porta em porta, e alcançou uma dramaturgia de grande expressividade. Passeia pelo humor o tempo todo com uma grande capacidade de expor as mazelas da sociedade moderna e fazer todos rirem de si mesmos.
Renata conseguiu unir bem o teatro e a dança. A atriz Ana Andreatta rouba a cena várias vezes e é o destaque de um ótimo elenco.
A produção está muito bem cuidada. Cenários e figurinos (de Cassio Brasil) de grande criatividade e funcionalidade.
Simpatia está em cartaz no Tuca.
E "Vamos ao teatro".
enviada por Jorge Felix
18/10/2007 15:13
Paulo Autran e a arte da generosidade
Foto: Edi Pereira
As homenagens a Paulo Autran, invariavelmente, estão sustentadas pela justificativa de ele ter sido um homem de teatro. Por mais que amigos e artistas procurassem traduzir esta definição, sobretudo no momento da despedida, é preciso esclarecer ao público sua importância nos bastidores para que se possa saber, em toda a sua plenitude, porque Paulo era especial.
É necessário divulgar ao público como a dedicação deste ator extrapolava as fronteiras imaginárias do palco. Ia muito além daquilo que o espectador conseguia ver e está também em muitas montagens que nunca foram acompanhadas pelo crédito ao seu nome.
Esta militância a favor do teatro o diferenciava completamente de seus pares. Ele era realmente preocupado com a manutenção de sua arte. Era insatisfeito com a limitação do discurso. Buscava a ação conseqüente.
Dedicava-se a preservar sua arte como um ecologista em defesa de um animal em extinção. Empenhava seu dia-a-dia a lutar por ela, nesta guerra que parecia sem fruto, como dizia Drummond. O público precisa saber como era essa batalha anônima. Uma parte dela os fãs conhecem, embora possam jamais percebê-la pela sutileza da tática: Paulo era um entrevistado incansável. Dificilmente recusava o convite para conceder uma entrevista.
Era assim que, mesmo sem fazer televisão, a usava exaustivamente para promover o teatro. Ia à televisão, quase toda semana, para desdizê-la, difamá-la em benefício de sua arte. Buscava todas as câmeras e gravadores para dizer que teatro era melhor.
Não interessava se era jornal de bairro, revista de empresa ou programas de grande audiência. Paulo comparecia sempre com a mesma mensagem: Vamos ao teatro. Poucos, mesmo entrevistadores, percebiam essa jogada do velho monstro dos palcos. Enquanto muitos de seus pares selecionam veículos, ele era radicalmente democrático. Onde pudesse levar aquela mensagem, o fazia.
Foi assim que tornou-se o mais entrevistado dos atores. Isso lhe tomava um tempo enorme. Paciência. Era uma mídia espontânea, nunca medida, imensa, e também nunca vista com outros artistas, sobretudo aqueles que estavam tantos anos longe de uma novela de grande audiência. Mais: entre artistas idosos.
Este, porém, era um ponto menor na grande guerra. A batalha maior era a formação de novos autores. O valor ao texto, a adoração ao autor, a leitura e a pesquisa intensa e insaciável são as lições maiores de Paulo aos seus colegas de teatro. Por incrível que pareça, isso o diferenciava. Se o brasileiro lê pouco, o ator é apenas mais um brasileiro.
Constitui tarefa hercúlea no Brasil fazer com que um ator ou atriz leia um texto e ofereça comentários. Principalmente, atores jovens. Caso mais grave é o de autores desconhecidos. No Brasil, o ator está sempre atrasado para a próxima gravação. Paulo abdicou deste problema. Assumiu para ele o compromisso com a função profissional e social de formação de novos autores. Os atores e atrizes, em geral, assumem a atitude de que o texto deve-lhe ser uma espécie de oferenda. Sempre perfeito e acabado.
Paulo esteve profundamente preocupado com isso. Ele sabia que essa postura matava autores. Era, portanto, improdutiva para o teatro. Sua ação em benefício do texto incluía a popularização das leituras dramáticas abertas. Não montava nenhuma peça, salvo clássicos, antes de uma leitura pública. Ficava atento às críticas desde que as ignorou na montagem de Brasil e Cia., na década de 70, e, além de dificuldades com a censura, amargou um grande fracasso com o texto de Vianinha, Ferreira Gullar e Armando Costa. Mas, admitia, sua maior intenção nas leituras era oferecer instrumental para beneficiar a dramaturgia.
Ao contrário da imensa maioria de seus colegas, Paulo lia todos os textos que chegavam a sua casa. Em menos de 48 horas (!) telefonava com seu parecer. Não deixava nenhum autor sem suas observações. Se gostava, perguntava imediatamente se o autor jovem e totalmente desconhecido, do qual ele nunca soube a origem tinha outros textos.
Se não gostava, incorporava o personagem que sonhou fazer, o diplomata, e sua educação ao emitir o parecer era de uma elegância inigualável. Elogiava uma simples vírgula para não desestimular o autor e apresentava, depois, suas armas para proteger o palco de um texto precário.
Nenhum outro artista neste país tem esta paciência e dedicação. Isso fez de Paulo um ator de muito mais do que 90 peças. Ele está espalhado por incontáveis montagens pelo país nesta e nas próximas gerações. Depois de ter um texto lido e rabiscado por ele, o autor se sentia com o compromisso de continuar, de melhorar, de buscar a todo o custo a sua aprovação. Isso fez muitos autores suarem sobre os teclados.
E Paulo era um soldado persistente. Ligava depois e perguntava se o autor havia feito mudanças, quando uma nova versão lhe seria entregue.
Quem tiver curiosidade, basta perguntar aos autores da recente maratona dos Satyros, o que Paulo mudou em suas vidas. Quase todos ali, em algum momento, tiveram a carreira marcada com x de Paulo sobre alguma coisa que eles escreveram em alguma peça. Nunca mais foram os mesmos. Ficaram melhores. É este homem de teatro, atuando mesmo sem buscar ouvir aplausos, que o país perdeu e a arte acusará a falta.
enviada por Jorge Felix
25/07/2007 11:06
Criação cultural sustentável
A cultura pode ser uma mercadoria valiosa e contribuir, de forma significativa, para o crescimento econômico de um país. É possível sustentar uma produção artística independente e, em paralelo, uma indústria de massa sempre prejuízo à criação.
O economista francês Paul Tolila viaja o mundo para defender essas teses tão polêmicas. Ou melhor, que provocaram muito debate no passado, mas atualmente caminham para um consenso. Ex-diretor do Departamento de Estudos Socioeconômicos do Ministério da Cultura da França, Tolila atualmente é consultor internacional. Autor de Cultura e Economia (Ed.Iluminuras), esteve no Brasil para o lançamento de seu livro a convite do Itaú Cultural, no qual participa do Observatório da Cultura.
Nesta entrevista, Tolila recomenda um primeiro passo para o crescimento do PIB da cultura brasileira: uma avaliação mais rigorosa dos resultados das leis de incentivos fiscais.
Valor Como fazer para políticos, governos e profissionais pensarem a economia da cultura?
Tolila O problema é que a economia da cultura, como outras abordagens deste tema, por exemplo, a sociologia da cultura, carece sempre, em muitos países, de uma organização do setor tanto administrativa como profissional. E carece também de uma capacitação de infra-estrutura. Faltam economistas que analisem a cultura, faltam sociólogos. Isso impede enxergar a cultura de outra maneira.
Valor No Brasil, governos costumam escolher artistas para administrar a cultura. Isso é bom?
Tolila Freqüentemente, o empenho pessoal em uma atividade não é a certeza de uma boa gestão. É bom dizer que não é uma particularidade do Brasil. Há sucesso, mas há muito fracasso. Podemos nos questionar se não existe aí muita ilusão. Não diria demagogia. Mas ilusão mesmo de acreditar que por ser artista torna-se capaz de administrar o setor. Não tem sido sempre o caso.
Valor A arte tem um espaço nos investimentos do mundo capitalista de hoje?
Tolila Há duas economias no setor cultural. Uma economia dos espetáculos, de dança, de teatro, da música, do patrimônio. As atividades clássicas. De outro lado, desenvolveu-se a indústria cultural, onde os mercados são atualmente mundiais. Destaca-se aí uma dominação norte-americana. Esta economia tem todas as características da economia clássica, do business. Não só isso. Ela chegou a um nível de desenvolvimento tal que hoje conquistou um papel estratégico.
Valor É um produto de exportação.
Tolila Claro. É preciso saber que a exportação dos produtos culturais é o primeiro item da pauta dos Estados Unidos, antes de aviões, carros, agricultura e armas. Logo a indústria cultural representa hoje um precioso papel no jogo de competição mundial. Nesse momento de dominação americana, há um jogo mais pesado para aqueles que querem defender sua cultura nacional. Como sobreviver e continuar a criar, quando a difusão massiva do modelo cultural é aquele difundido a partir dos Estados Unidos?
Valor A indústria, então, pode competir, mas a arte é sempre obrigada a se adaptar...
Tolila Conversei outro dia com estudantes africanos que me contavam a história de um cantor. Ele produzia de forma independente e foi contratado por uma gravadora, aí seus versos se tornaram mais curtos, o ritmo mudou. Os artistas são obrigados a se adaptar a uma formatação que a indústria impõe. É como o design dos carros. Muda ao mesmo tempo em todo o planeta. O desafio é fazer com que, dentro desta industrialização, exista uma política pública capaz de fazer uma produção cultural competitiva no mundo globalizado.
Valor - Como?
Tolila No México, decidiram juntar pequenas empresas para receber aporte financeiro governamental. O cinema mexicano foi muito importante nos anos 50 e estava morrendo porque os tratados de livre comércio assinados com os Estados Unidos provocaram uma invasão e o cinema americano passou como um rolo compressor sobre a produção nacional. Então, a questão se colocou: o que fazer para revitalizar o cinema mexicano? Não sei se passa o mesmo com o cinema brasileiro.
Valor A cultura sofre mais neste processo de resistência à globalização?
Tolila Necessariamente deve-se repensar a cultura porque temos efetivamente uma dominação econômica por intermédio da economia da cultura. Não pode é ver mecanicamente como apenas é preciso resistir a. Mas a verdadeira questão, a mais conseqüente, é como resistir a?. Com qual política? É preciso olhar as margens de manobra, examinar qual setor é possível agir mais. Resistir não é uma tarefa fácil.
Valor As leis de incentivo fiscal são a melhor forma de fomentar a cultura?
Tolila É sempre dinheiro público. Nós temos na Europa um dispositivo idêntico. Mas a presença do Estado é forte. Há um bom orçamento e o governo pode investir diretamente. O modelo espanhol é um pouco diferente. É meio a meio. Globalmente falando, a grande questão que se coloca é qual o montante de investimento que vai para a cultura? O que se faz de forma direta pelo governo e de forma indireta? Quais são as necessidades para o setor cultural se desenvolver economicamente? É por isso que a questão da economia deste setor é tão importante.
Valor Como evitar que os recursos das leis de incentivo sejam destinados apenas aos artistas com um melhor retorno de marketing para as empresas?
Tolila Essa é uma questão crucial da política pública. Há um risco de reduzir a ajuda do Estado à renovação cultural. É o problema de equilibrar a subvenção. Eu acho veja bem, acho que esta política de leis de incentivo carecem de um dispositivo de avaliação permanente. Esta política é muito executada como um dispositivo administrativo. Apenas. É concedida burocraticamente. Basta haver conformidade no dossiê dos documentos apresentados ao ministério. Falta objetivo. Falta saber qual a visão que tem da cultura para não ficar apenas concedendo o benefício a todos e deixando os produtores disputarem as verbas da iniciativa privada. É uma forma burocrática demais. Não quero fazer uma crítica abstrata. Mas, pelo que entendi, no Brasil ocorre assim. Talvez tenha entendido errado.
Valor Falta um objetivo?
Tolila Poderia dizer: 50% dos recursos vão para jovens artistas. Seria brutal. Mas seria mais claro. Poder-se-ia também dar condições para artistas jovens ou sem condições de montar seu projeto para apresentá-lo ao ministério. E fazer depois uma avaliação. O problema é que estas políticas de incentivo nunca são avaliadas em seus resultados. Damos a autorização, as pessoas vão captar o patrocínio na iniciativa privada e há a renúncia fiscal. Todos ficam contentes. Mas qual o efeito para o conjunto da sociedade? Para o processo cultural? Para a economia da cultura? Para os novos criadores? Ninguém sabe. Não se pode renunciar os impostos para uma política que é apenas a administração de processos, dossiês. E para se avaliar, é necessário ter, antes, um objetivo claro.
Valor Na sua visão, o Estado cumpre apenas parte da missão?
Tolila Esse é um perigo das leis de incentivo: o governo se vê cumprindo o seu papel. Ele dá a permissão para captar e não verifica o que ocorre depois. No entanto, o mais importante para a cultura é o que ocorre depois. A avaliação, é bom que se lembre, é uma premissa de todas as economias modernas, mesmo as mais liberais. Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha. A avaliação é uma cultura de informação válida para o governo, para a iniciativa privada e para os profissionais da cultura. É um feedback para a administração da política cultural e decisiva para a modernização do processo.
Valor Em outros países, a estratégia das leis de incentivo tem um bom resultado?
Tolila Em todos os países que adotam leis de incentivo há objetivo definido. E avaliação constante dos resultados. É bom dizer também que em todos há uma forma mista: leis de renúncia fiscal e recursos públicos diretos. Sem isso, os administradores públicos não poderiam ser cobrados de resultados.
Valor - Como traçar uma estratégia de produzir cultura com a lógica mercantil e preservar a arte?
Tolila Nós vivemos efetivamente numa espécie de contradição potencial entre o nível de mercado de massa e a criação cultural. Mas acredito que a verdadeira produção artística pode sobreviver desde que a cultura torne-se verdadeiramente uma preocupação do país. Não somente discurso. Uma verdadeira preocupação, insisto.
Valor Isso quer dizer...
Tolila - Isso quer dizer que o governo, assim como a iniciativa privada, se preocupam com esta questão. Porque a indústria cultural, a grande, a grande mesmo, não tem necessidade de financiamento do Estado. Mas a criação cultural, sim. Ela precisa de financiamento porque ela não é rentável. Assim como a pesquisa. A pesquisa não é rentável agora, será em cinco, dez quinze anos. O ritmo do capital financeiro não suporta esse tempo. É a mesma coisa também da educação. Logo estamos falando de um processo longo, um investimento no qual o industrial capitalista exerce mal o seu papel. É essencial que as instituições sejam capazes de ver a questão a longo prazo, seja o governo ou o setor privado.
Valor Assim teria espaço para as duas formas de produção?
Tolila Pode haver a co-existência de uma indústria e de uma criação artística. Até porque a criação artística é a base da indústria. A indústria funciona sobre a lógica do mercado evidentemente. Mas ela precisa da novidade. Veja os grandes grupos, como Sony, Warner, são alimentadas por pequenas empresas muito criativas. Empresas minúsculas sem a pujança financeira, mas que têm criatividade, se interessam pela criação, trabalham em nichos de mercado e não para o mercado mundial. Então as grandes ficam olhando, quando descobrem um talento, elas integram, compram a empresa pequena etc É assim que as grandes, apesar de tudo, participam da diversificação cultural. Não é sempre um instrumento que desqualifica a produção artística. Ela também, muitas vezes, permite que o artista se exprima de maneira ampla, global. Valor Quais seriam suas recomendações para o Brasil?
Tolia Falta um pensamento estratégico, industrial, alianças que possam constituir uma indústria brasileira forte. Talvez européias, latino-americanas, mas face à hegemonia americana é preciso pensar uma rede, uma articulação. Esta é uma reflexão rara no setor cultural. Deveria ser o princípio para a parceria público-privada. Se vale para outros setores, infra-estrutura, por exemplo, vale para a cultura. Eu defendo isso em meu livro: o trabalho de uma inteligência econômica para a questão cultural. Pode-se fazer uma ação conjunta dos ministérios da Fazenda, Cultura e Relações Exteriores e setor privado. É preciso que todos se sentem para refletir qual a estratégia cultural capaz de colaborar para o crescimento econômico.
Valor De que forma, nesta visita, sentiu os efeitos concretos da falta desta estratégia?
Tolila Não existe, por exemplo, um grande circuito de galerias de arte nas cidades brasileiras. São muito poucas. Isso é espantoso. Supreendente. É um problema da organização do mercado de arte. Isso me parece ter um efeito, às vezes, tanto econômico como na forma de criação. Isso é uma observação que fiz porque fui também ao Rio de Janeiro e tentei fazer um passeio por alguma área de galerias e não existe, não existe um bairro que as reúna. Você vai a Paris, à cidade do México, a Londres, a Nova Iorque e tem um bairro inteiro especializado em arte. É extremamente importante para o turismo.
Valor Como constituir um setor cultural rentável em um país com carências na Educação?
Tolila Se a educação não é prioridade, o país terá problema. Compromete a formação da cidadania e competitividade da pessoa no mercado de trabalho globalizado, porque a economia moderna é cada vez mais sustentada pela capacidade de inovação. São as soluções originais que valem mais. A educação e a cultura são os setores onde o retorno do investimento de um país na questão de inovação é certo, garantido. No México houve uma percepção estratégica. Não sei se existe esta percepção aqui.
(Matéria publicada no jornal Valor, caderno EU&Fim de Semana, 20/07/07)
enviada por Jorge Felix
17/05/2007 17:24
Clássicos & Economia
(Paulo Autran, em O avarento, de Molière)
A tarefa do mundo moderno é afastar o ser humano do rústico. Se este mundo é o da cultura e se este ser é um leitor, será cada vez maior a distância entre o hábito de leitura e os clássicos. Há uma avalanche sobre cada um de nós a impedir a aproximação com as obras marcantes da Humanidade. A vida fast e non stop enterra o homem atual na ansiedade da informação. No entanto, esta informação é aquela produzida ontem, no máximo, anteontem ou, quiçá, on line. Tempo é dinheiro e não há tempo a perder.
Estar bem informado é estar a par do último tudo o último filme, o último livro, a última notícia. Se por um lado, a atualização é vital para garantir a sobrevivência principalmente no mercado de trabalho -, por outro, a quantidade de informação nova demanda um background de grande capacidade. Caso contrário, é como semear no terreno árido. A leitura dos clássicos, portanto, passa a ser condição indispensável para entender a modernidade.
É preciso rigor na seleção do que há de realmente original em tantas formas vendidas como inéditas. Quase sempre são apenas ferramentas para atender à necessidade de imediatismo. Os clássicos, não. Sua confecção depende do tempo de reflexão e, talvez, tenha sido isso que permitiu aos autores dizer o que nunca havia sido dito de uma maneira que nunca havia sido escrita. Definitiva.
Com uma dose generosa de otimismo, o escritor cubano naturalizado italiano Ítalo Calvino (1923-1985) disse que clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: Estou relendo e nunca Estou lendo. Por isso, Calvino marcou o terreno para um leitor de clássicos. Deixou de fora os mais jovens. Para ele, nesta idade a leitura das obras fundamentais seria apenas um primeiro encontro. Um clássico, segundo Calvino, é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.
O leitor duvida? Peguemos a economia como exemplo. Escolha-se aleatoriamente O mercador de Veneza, de William Shakespeare (1564-1616). Experimente ler a história de Antônio e Shylock aos 20, aos 30 anos e daí por diante a cada dez anos de sua vida. Se seu interesse é economia, descobrirá que Shakespeare, no século 17, colocou nesta comédia romântica sobre a conquista da felicidade, todos os conceitos modernos de teoria econômica. E moderno aqui entenda-se século 21, globalização inclusive.
Como? Pergunte ao jornalista Thomas Friedman em O mundo é plano qual foi o primeiro estágio da globalização? Resposta: os grandes descobrimentos. E Shakespeare viveu nesta época. O mercador também fala de hedge, diversificação de investimentos, contratos, governança corporativa (a necessidade de transparência e confiança para garantir capital mais barato) e até mesmo, ou sobretudo, da felicidade e o dinheiro.
A peça discute o quanto de sacrifício se é capaz de fazer para se alcançar a felicidade e o dinheiro está nessa. Aliás, Shakespeare explora o dinheiro como tema em outra peça fundamental, Timão de Atenas, recentemente montada pelo ator Renato Borghi. Timão foi a última tragédia do bardo inglês, pelo menos assim foi incluída no primeiro folio, de 1623. É um texto considerado inacabado e escrito entre 1608 e 1609, mas obrigatório para quem, hoje, lida com o dinheiro seu ou de outro.
A peça traz inúmeras lições para os gestores de private banking, administradores de fortunas, porque Timão ouve a todos no seu período de bonança menos seu gerente financeiro que era, naquela Atenas, o mordomo. É pena ser tão cega a mão aberta pra não ter o infeliz a dor que é certa, diz o criado para si mesmo quando vê seu patrão surdo a seus apelos e benevolente com jantares, festas e presentes para os amigos.
Até o personagem Apemantus, o filósofo, com toda a sua arrogância, prepotência e acidez é ouvido sempre, mesmo que apenas para alimentar a discordância. O mordomo nem isso. Timão só o escuta quando está na mais profunda inadimplência que resulta de seu hedonismo. O tema principal de Timão é a misantropia, oriunda do desapontamento do protagonista com todos aqueles supostos amigos que o cercavam e se locupletavam com sua generosidade enquanto ele foi rico, mas se recusam a ajuda-lo quando ele se vê falido, explica a crítica de teatro Bárbara Heliodora, cujas traduções de Shakespeare acabam de ser publicadas em rica edição da Aguilar, em papel bíblia e capa dura como convém aos clássicos e como só esta editora mantém no Brasil.
A economia, só para limitarmos o tema, nos impõe a obrigação de clássicos de infinitos autores. Em O valor do amanhã, do economista Eduardo Giannetti, só Adam Smith e Karl Marx são citados mais vezes do que Shakespeare. Mas não é apenas no bardo inglês onde podemos encontrar lições econômicas, evidentemente. Pega-se na estante Fiódor Dostoiévski (1821-1881) com seu Crime e Castigo. O dinheiro é o centro do romance, o motivo principal da ação do protagonista e de todos à sua volta. Lá pelas tantas, o autor russo alerta para um conceito bastante atual, o do empreendedorismo.
Diz o personagem Razumíkhin: Lorotas, não existe espírito empreendedor. O espírito empreendedor se consegue a muito custo, não cai do céu, de graça. Há quase duzentos anos nos desacostumamos de qualquer empreendimento... As idéias, admitamos, realmente andam por aí e existe um desejo, ainda que infantil, de fazer o bem; e se encontra até honestidade, apesar de haver-se juntado em torno dessa questão um sem-fim de trambiqueiros; no entanto, espírito empreendedor mesmo não existe! O espírito empreendedor custa caro.
Dostoievski publicou isso em 1866. Nada mais atual. Até porque o especialista Paulo Bezerra, tradutor do original russo, nos informa que a inspiração do autor foi a reforma econômica do czar Pedro, o Grande (1689-1725) que, segundo Dostoievski, criou um abismo na Rússia entre a sociedade ilustrada e o povo. Essa distância teria sido fruto da chamada europeização daquele país incentivada pelo governante.
Embora as livrarias estejam repletas de lançamentos sobre o dinheiro, é possível entender mais sobre a influência da moeda nas relações humanas lendo Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Em A historia do dinheiro, o antropólogo Jack Weatherford considera a peça um dos tratados mais interessantes sobre o surgimento do papel-moeda. O pacto com o demônio e a felicidade originada a partir da posse da folha enviada do céu descrevem a relação do Estado com seu poder de emissor de moeda ao mesmo tempo em que mostram os efeitos do mal uso do dinheiro na sociedade e o perigo dos sedutores gastos públicos.
Molière (1622-1673) usou e abusou daqueles que têm o dinheiro em toda a sua obra. Quase sempre oferecendo panorama de como a sociedade constrói o ambiente de negócios. Infelizmente, sua visão do mundo no século 17 resistiu ao 21. Em O avarento, recentemente montada pelo ator Paulo Autran, percebe-se como a pressão pelo ter corrói os mais nobres sentimentos e compromete o ser. Harpagon nunca conseguiu ser um pai, um marido, um amigo ou um amante. A única coisa que consegue ser é dono de alguma coisa.
Harpagon é uma caricatura e torna-se ainda mais cômico quando rouba aveia de seus cavalos ou quando sua aversão constitucional à palavra dar obriga-o a usar a saudação eu lhe empresto um bom dia. Bárbara Heliodora observa que por mais risível que Harpagon possa ser, há uma carga de seriedade, de repúdio profundo a mais esse exemplo de desrespeito aos valores humanos, sem dúvida responsáveis pelo fato de a obra de Molière ser merecidamente muito mais consagrada do que a de Plauto, que inspirou o autor francês.
Neste árduo caminho na escolha dos clássicos é preciso de ajuda ou incentivo de especialistas. Os intelectuais e o mercado editorial têm sido benevolentes. Além de Calvino, outros autores têm elaborado as famosas listas de livros indispensáveis. Ninguém o fez com melhor análise do que o crítico americano Harold Bloom em três livros Como e porque ler?, Um mapa da desleitura e Onde encontrar a sabedoria? (todos da Ed. Objetiva). Bloom prega que a sabedoria é uma imposição para a felicidade e aponta os clássicos como a melhor fonte. A literatura, segundo ele, é capaz de provocar um confronto do ser humano com ele mesmo e, assim, arrancar dele a solução para seus próprios males. Os clássicos teriam um poder ainda maior.
(matéria publicada na revista do Banco Fator, edição 2, abril/2007)
enviada por Jorge Felix
25/04/2007 00:10
A voz da mulher de Shakespeare
W. Shakespeare nasceu no dia 23 de abril de 1564, do casal John e Mary. Começam aí as inúmeras curiosidades deste autor universal. Um filho de João e Maria, assim, simples, produziu obra incomparável. A melhor de todas, porém, é sua própria biografia.
A melhor é a de Park Honan, publicada em português pela Cia das Letras.
Mas há inúmeros livros interessantes sobre momentos da vida de Shakespeare. Um deles, O relato íntimo de Madame Shakespeare, do crítico inglês Robert Nye, editado aqui pela Geração. (Não sei porque traduziram por Madame, melhor seria Mrs ou Senhora).
A data de nascimento também é discutível, mas hoje aceitasse o dia 26 como seu batismo. Mas esta é a menor de tantas polêmicas sobre o bardo. A maior delas caiu no vazio e dava conta de sua inexistência.
É por isso que todas as peças e livros sobre a vida de WS fazem grande sucesso e acompanham suas peças no crescente interesse do leitor.
Como disse em matéria postada abaixo, cresce o interesse pelo autor em diversas profissões, como mais um instrumento de análise para a economia, a psicologia, a administração etc.
Em cartaz, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, a peça "O relato íntimo de Madame Shakespeare" é ótima oportunidade para conferir uma parte histórica e extremamente interessante da obra e da vida de WS: "a Sra. Shakespeare (Anne Hathaway) escreve em um diário suas lembranças daquela semana -, a adaptação brasileira traz um notável aprimoramento dramático: ela é interpretada por duas grandes atrizes de idades diferentes, Selma Egrei e Maria Manoella, que contam sua história, complementando uma e outra detalhes e observações que vão montando um quadro vivo, humano, divertido, erótico e inteligente da relação entre o genial escritor e sua mulher, oito anos mais velha, e que nunca se interessou em ler uma página de sua imensa obra."
Ficha Técnica - Elenco: Selma Egrei e Maria Manoella no papel de Anne Hathaway / Autor: Robert Nye / Direção Geral e Adaptação para teatro: Emílio di Biasi / Tradução: Marcos Daud / Direção Geral de Produção: Alexandre Brazil / Cenário: André Cortez / Figurinos: Beth Filipecki / Músicas Originais: André Abujamra / Iluminação: Wagner Freire / Coreografia e Gestual: Renata Melo / Fotos de cena: Lenise Pinheiro / Assistência de Direção: Nicole Aun / Assessoria de Produção: Vitor Souza / Administração: Adriana Chung / Idealização: Escritório das Artes / Patrocínio e Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
enviada por Jorge Felix
18/04/2007 01:50
Dois Shakespeares diferentes
Um é a experiência de dança e teatro "Labirinto d´água", no Tuca, em São Paulo, com a atriz Raquel Ornellas.
Ophelia, morta afogada após ser rejeitada por Hamlet - foi recriada pela pesquisa corporal feita pela atriz. Em vez de ter seu fim na morte, como no texto original, a personagem ganha nova existência, como criatura mítica. A peça está em cartaz até 10/06, no novo espaço do Tuca, a Sala de Ensaio.
Outra experiência interessante (acredito) será a apresentação integral do vídeo da montagem de Otelo na linguagem do teatro indiano, kathakali. É um trabalho do professor Sadanam Balakrishnan e a companhia do Internacional Centre for Kathakali.
O registro em video foi feito pelo professor José Luiz Martinez (do Departamento de Linguagem Corporal da PUC-SP).
A apresentação será dia 19, às 18h30, no auditório Banespa, térreo do prédio novo da PUC.
enviada por Jorge Felix
18/04/2007 00:41
O homem político em Shakespeare
Livro de Bárbara Heliodora aborda o poder na obra do célebre dramaturgo inglês
Ser líder é o desejo de um grande número de profissionais. Ninguém que vislumbre a ascensão ao topo, onde terá o poder de decisão, pode desprezar a leitura dos textos de William Shakespeare (1564-1616). Suas peças políticas foram negligenciadas por anos em benefício das comédias ou de obras supostamente apenas românticas, sobretudo Romeu e Julieta um texto eminentemente político.
Pouquíssimos autores daria para contar nos dedos de uma só mão conseguiram elaborar um conceito de liderança com contribuições tão significativas para o homem público e, diante de escândalos igualmente escabrosos no mundo corporativo, também para o executivo. O que é ser um líder na visão deste autor universal ? Como pode-se construir um ? Quais as artimanhas do poder e como fazer para mantê-lo ? Como tornar-se um líder admirado e obedecido sem usar a força ou a guerra ? Shakespeare tem as respostas. As melhores respostas.
O princípio básico da boa análise política portanto da liderança - é o estabelecimento de regras elementares da democracia como paradigma único e imutável. A partir daí, o analista experimenta as diretrizes de qualquer governo em seu figurino prêt-à-porter. Se algo cair malajambrado, o mandatário terá sido reprovado pelos critérios que levam ao bem-estar comum.
Shakespeare nunca conheceu a democracia pelo menos na plenitude que a entendemos em nossa era contemporânea -, mas, como analista político, uma vez mais, foi aprovado pela História ao definir claramente, em quase todas as suas 37 peças, os parâmetros para o bom rei. Em sua obra é tão fácil chegar a este diagnóstico como assinar em baixo do amor recíproco dos jovens amantes de Verona.
Esse interesse de Shakespeare pela função política do Homem o torna leitura obrigatória para quem analisa a liderança, depende dela, ou quer alcançá-la. O teatro elisabetano tem sua mais produtiva fase num momento peculiar da Inglaterra, o fim da era medieval para a época da formação do Estado, os anos das grandes expedições e de um nacionalismo exacerbado que ao mesmo tempo provocava adoração e vigilância no povo diante dos monarcas.
Ao reeditar O homem político em Shakespeare (392 páginas, R$ 44,90), da crítica teatral Bárbara Heliodora, a editora Agir (selo da Ediouro) cumpre uma função quase social neste momento histórico do país. Primeiro pela oportunidade de oferecer aos nossos políticos se é que eles querem uma leitura de imenso caráter didático para lidar com a tão falada democracia e, por conseqüência, com a famosa coisa pública, assaltada pela insaciável corrupção.
Segundo, porque aos 81 anos, Bárbara já traduziu quase a totalidade das peças de Shakespeare e é, sem dúvida, a melhor cabeça para guiar-nos por este terreno e o faz neste seu trabalho com sua maestria impecável de sempre, com a autoridade de quem já trouxe para a língua portuguesa 28 das 37 peças do bardo. (E, certamente, logo terminará as obras completas porque trata-se de uma work-a-holic apaixonada pelo que faz.)
Há ainda um terceiro motivo para saldarmos a obra: este estudo, tese da autora em seu doutoramento em Artes na Universidade de São Paulo, mereceu uma primeira edição (com o título original A expressão dramática do homem político em Shakespeare) em 1978, pela Paz e Terra, porém, foi quase ignorada pelo mercado livreiro.
Dentro da ampla bibliografia shakespeareana mundial, o livro de Bárbara tem seu lugar e é freqüentemente citado em estudos internacionais, acadêmicos ou não. Agora, é bem provável, pelo momento em que reaparece, que o livro deve ganhar ainda mais destaque por vivermos em meio a mensalões, disputa entre os poderes, desculpas esfarrapadas como as das armas químicas iraquianas para justificar a guerra.
Shakespeare tem muito a falar sobre tudo isso. Bárbara Heliodora esmiuça o pensamento de Shakespeare sobre a política e o exercício do poder nas oito peças históricas: a primeira tetralogia, composta pelas três partes de Henrique VI e por Ricardo III; e a segunda por Ricardo II, as duas partes de Henrique IV e Henrique V sendo que esta ganha contornos específicos por ter sido criada sob forte censura. A primeira tetralogia, como se sabe, foi escrita por um autor jovem e tem como alvo a luta pelo poder do período da Guerra das Rosas.
Embora o foco seja em torno dessas peças, outros textos são inevitavelmente citados com o mesmo peso de mensagens. Em A Tempestade, o governante nos primeiros atos tem poder mágico, que perde no transcorrer da trama. E aí, sim, volta à sua terra para governar. Shakespeare nos ensina que o nível do governante e governado não pode ser diferente e que não se consegue governar com mágicas. Já em Júlio César, há um conflito de idéias e ideais.
A atitude de Brutus mostra onde as pessoas são levadas por suas crenças políticas. Mostra também que não há governante, por mais capaz e honesto, que compense a perda dos direitos dos cidadãos sendo o conceito desses direitos bastante amplo. Brutus, ao participar do assassinato de César, pensa que vai preservar a República, mas precipita o surgimento do Império. Ou seja, as coisas nem sempre saem como previsto e, mais ainda, podem fugir do controle do autor da ação política. E aí vale o parênteses: quando o ex-deputado José Dirceu abriu guerra contra o petebista Roberto Jefferson jamais pensou que o desfecho pudesse ser aquele que o país está testemunhando. É esta a atualidade da leitura dos textos clássicos e universais.
Um líder verdadeiro, para Shakespeare, nos esclarece a autora, é aquele que preocupa-se com o aprendizado do respeito à lei (Henrique IV), resiste às mudanças de caráter que o poder, como uma serpente, tenta impor e lembra que qualquer desvio de conduta do governante tem implicações no coletivo e ainda que o líder (Henrique V) sempre terá o bem (Henrique IV) e o mal (Falstaff) como conselheiros.
Além do texto, Shakespeare presenteia o leitor com sua ardilosa carpintaria teatral. Nas duas partes de Henrique IV, o reino é retratado não apenas nos palácios reais e salões nobres, mas em tabernas freqüentadas por serviçais, prostitutas e vigaristas. Pela primeira vez na história universal do teatro, o andar de baixo aparece no palco.
Mas só sabemos desta curiosidade e de outras mais graças a autora. Bárbara acaba de terminar a tradução de Ricardo III, o pior dos reis, com seus 54 personagens com direito a fala é o maior número de personagens da dramaturgia, superior a qualquer obra de Corneille, Racine ou Molière. Este é o valor de trilhar Shakespeare pelas mãos de Bárbara.
Ela está sempre provando que o bardo nunca teve nada de erudito ou hermético. Suas palavras são as mais comuns, suas imagens são as mais populares da época (como um mingau frio, Quais vitela sem canga, já correm pra norte, sul, leste e oeste). Tão populares que a principal crítica de Ben Johnson lhe fazia era de ser um autor de concessão. Provavelmente porque nos mais de mil lugares do Globe Theater não havia espectador que não captasse as críticas mordazes de todos os textos das 22 peças políticas de Shakespeare.
Neste O homem político em Shakespeare, Bárbara Heliodora além de mapear a obra do bardo, faz ilações e comparações, e garante ao leitor mais do que a compreensão, a reflexão sobre o conteúdo político nas peças históricas do dramaturgo. É um livro para acompanhar as leituras das peças (aliás as 28 traduções de Bárbara sairão daqui a pouco pela Aguilar, em papel bíblia e capa dura). O trabalho da autora empresta outro sabor a leitura das peças, revela como surgiu e o que está por trás das frases do poeta. É inevitável, depois sair em busca dos paralelismos inevitáveis.
Logo depois de Elisabeth mandar executar sua irmã Mary Stuart e depois dizer que não mandou dar a ordem e sentia a dor da morte, Shakespeare escreveu em uma fala de Brutos (Ato II, cena i, de Júlio César): Que nossos corações, quais sábios amos, mandem servos vibrar golpes irados, parecendo, depois, repreendê-los. Qualquer semelhança com governantes que participam de esquemas de corrupção e depois vêm a público para condenar seus correligionários como se nunca tivessem tomado conhecimento de nada, não é mera coincidência. Como dizia o bardo: Poucos homens gostam de falar das faltas e das falhas que com prazer praticam. Essa, sem dúvida, é uma regra que jamais cabe ao homem público desenhado por Shakespeare.
(matéria publicada no jornal Valor Econômico, 23/12/2005)
enviada por Jorge Felix
16/04/2007 18:08
Teatro é para ler
O ator Paulo Autran se lembra. O país ainda respirava o ar pesado da ditadura militar. Ele, digamos, militava no antológico grupo Opinião. O texto caiu em suas mãos e logo o seduziu pela vivacidade. Encantado, reuniu alguns atores em sua própria casa, no Rio de Janeiro, para uma leitura. Aproveitou para chamar outras pessoas à guisa de público. Os autores eram perfeitos e formavam a seleção de ouro do teatro político da época: Ferreira Gullar, Armando Costa e Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha. O título do espetáculo, Brasil e Cia, completava a receita de sucesso exigida pelos padrões culturais da época. No fim da leitura, críticas. Sugestões de cortes e de mudanças.
Paulo fez-se de surdo e decidiu ignorar as opiniões de quem tinha ouvido o texto. Eu estava tão confiante naquele momento, que a desprezei e foi um fracasso. Daí em diante, passei a dar grande valor à leitura e sempre faço uma sessão pública antes de decidir pela montagem do texto, afirma o experiente ator.
Até bem pouco tempo, a leitura de textos de teatro tinha essa finalidade quase técnica. Mas o público brasileiro está derrubando o tabu de que no país poucos se interessam pela dramaturgia. No Rio de Janeiro e em São Paulo, multiplicam-se os ciclos de leitura que passaram a integrar a agenda cultural das metrópoles.
Ao contrário da década de 80, quando surgiram alguns eventos do gênero com o objetivo de trazer à tona textos proibidos na época da censura (um dos mais famosos e freqüentados foi o Anos do silêncio, no antigo Teatro da Praia, no Rio), a justificativa para as leituras, agora, são as mais variadas. Além de ajustar textos para encenações futuras, as leituras lançam autores jovens, divulgam a nova e a antiga dramaturgia, resgatam obras esquecidas e ainda alimentam debates sobre temas contemporâneos ou filosóficos.
Um dos espaços pioneiros na adoção dos ciclos de leituras foi a Casa da Gávea, no Rio, onde em 10 anos já foram lidos mais de 600 textos. Sessenta deles foram encenados, inclusive, Por que você não disse que me amava?, de Vera Karam, atualmente em cartaz, dirigido por Paulo Betti, com Cristina Pereira e Rafael Ponzi. O Sesc Copacabana também mantém com religiosa periodicidade seu programa de leituras. Só no último Riocenacomtemporânea, um dos maiores acontecimentos teatrais do país, apenas uma autora, Sarah Kaine, teve três peças lidas no festival.
Em São Paulo, o aniversário de 50 anos do Arena foi comemorado com um ciclo de leitura de 17 autores na série Arena mostra novos dramaturgos, entre eles Mário Bortolloto, Newton Moreno, Gero Camilo, entre outros. Além de espaços tradicionais, como o auditório do jornal Folha de S. Paulo, outros palcos começam a se abrir para a apresentação de textos sem compromisso com o aparato da encenação.
O Centro Cultural Banco do Brasil firma-se neste roteiro. Ambientes alternativos e originalmente com finalidades distintas ensaiam abrigar as leituras teatrais, mostrando a vocação da prática para o circuito cult da cidade.
O próprio Paulo Autran transformou-se no maior desbravador desses espaços. Há alguns meses, fez uma apresentação na Livraria da Vila e depois na Casa do Saber, com Corpos Presentes, do jornalista Dib Carneiro. A Casa do Saber, em pouco tempo, aproveitará as leituras para intensificar a discussão de temas até então explorados apenas nos seus cursos. A madrinha da idéia é a atriz e sócia da Casa do Saber, Maria Fernanda Cândido. Pensamos em criar algo multidisciplinar onde o texto do teatro vai ter presença forte, fizemos algumas leituras como balões de ensaio e a receptividade foi muito boa.
Podemos optar por textos contemporâneos que façam a ponte para o que está sendo discutido nos nossos cursos, afirma Márcio Aurélio, diretor de teatro e conselheiro da Casa do Saber. Com longa trajetória e assinando um dos maiores sucessos da temporada, a peça Agreste, ele tenta explicar a febre das leituras: a literatura dramática é muito pouco divulgada, as pessoas não têm acesso, mas depois que têm gostam e vão buscar mais, até porque se publica pouquíssimo teatro e tem muita coisa acontecendo, tem que dar vazão a essa grande produção.
Esse afunilamento rumo à encenação pode ser um dos maiores incentivadores das leituras. É consenso que, de forma alguma, a leitura substitui a montagem, mas em tempos de censura econômico-financeira o texto escapa de se ver condenado à gaveta. A leitura passa a ser o début possível do autor estreante. A leitura não necessariamente te leva à montar, mas as pessoas passam a prestar a atenção no autor, afirma Mário Viana, premiado autor de Vestir o pai e Carro de paulista.
É difícil reunir um bom elenco para uma montagem, há uma série de variáveis difíceis de se combinar, mas para uma leitura, em um dia, se consegue bons atores dispostos a aceitar, completa.
As leituras são favorecidas ainda por outra imposição da crise de escassez de patrocínios. Exatamente aquela que Paulo Autran não conseguiu escapar: o risco de fracasso com o público.
Embora o número de peças em cartaz seja grande mais de 90 em São Paulo e mais de 40 no Rio -, há muitos projetos para poucos mecenas. O teatro vive uma pindaíba como nenhuma outra forma de arte está passando neste momento. Até mesmo a atriz Fernanda Montenegro admite que seu longo afastamento dos palcos se deve à dificuldade de manter um espetáculo em cartaz.
Portanto, todo cuidado é pouco e nada melhor do que testar a eficácia do texto antes de desperdiçar os recursos. Eu dificilmente vou, mas é melhor a leitura do que montar espetáculos sem acabamento, mal feitos mesmo, e ainda quem faz acha ótimo e a gente tem que ver, afirma a crítica de teatro Bárbara Heliodora. Dificuldades à parte, Paulo Autran acha muito boa a onda das leituras.
Independente do motivo de estar ocorrendo, eu acho que todas as formas de teatro valem a pena. É mais autor despontando, mais debate, mais cultura. Se o público está indo e gostando do teatro assim, ótimo, é mais discussão sobre a vida porque o teatro, em resumo, é isso, festeja.
(matéria publicada na revista Foco Economia, 2004)
enviada por Jorge Felix
11/04/2007 12:12
A Lei Rouanet de roupa nova
Uma matéria sobre a dificuldade dos novos dramaturgos em desfrutarem das benesses das leis de incentivos fiscais foi publicada recentemente no caderno EU&Fim de Semana do jornal Valor e aqueceu o debate entre os autores sobre a necessidade de mudanças nas regras da Lei Rouanet.
Sobre isso, escrevi, em 2004, o seguinte artigo na seção Tendências/Debates, da Folha (14/01/2004):
No primeiro ano do novo governo, a área cultural esteve também sujeita, assim como a social, a previdenciária e a educacional, entre outras, a cenas típicas de um pastelão. O que se viu foi um "clown" desengonçado tentando vestir um "black tie" de aluguel. Tamanho foi o desconforto, que acabou dando razão a muitos que defendiam a idéia de que quem nunca usou rigor deve permanecer distante da gravata borboleta. Exagero. Mas o governo deu motivos de sobra.
A questão cultural passou a ser um assunto de Estado tão importante que mereceu ser tratada no próprio Palácio do Planalto, por um ministro do núcleo mais próximo do presidente. O absurdo foi devida e amplamente criticado. Agora, depois de uma visita ao alfaiate mais próximo, o governo prepara-se para caber no novo figurino. Na área cultural, o debate apresentado para 2004 será a revisão das leis de incentivo fiscal, sobretudo a Lei Rouanet (8.313/91). O objetivo aqui é emprestar alguma colaboração a essa discussão.
Antes de tudo, é justo lembrar a área econômica, à qual o figurino coube como se feito por encomenda. Em sentido inverso ao esforço fiscal, patrocinado pela competência insaciável da Receita Federal, o governo pretende manter sua política cultural baseada na renúncia fiscal. Ou seja, enquanto o brasileiro assalariado é punido com mais tributos e alíquotas leoninas, o governo acredita ser justo estimular a área cultural em troca de uma arrecadação menor. Perfeito. É escolha. Mas isso implica grande responsabilidade por parte de quem o governo irá permitir gozar desse benefício e, sobretudo, do beneficiado. Aí cabe a pergunta: a quem essas leis incentivam?
O maior equívoco das leis de incentivo fiscal é jamais diferenciar os autores novos dos já consagrados
As maiores críticas à Lei Rouanet são o caráter regionalista, que privilegia o Sudeste em detrimento dos Estados mais carentes em produções e recursos para a cultura. As empresas dispostas a abrir suas contas, em tempos de balanços tão discutíveis aí pelo mundo afora, só se submeterão à possibilidade de uma devassa da Receita (o que geralmente ocorre, no bom sentido) se o investimento apresentar o menor risco. E, como o país já virou especialista em avaliação de risco, sabe-se que isso significa Rio de Janeiro e São Paulo. Nunca houve uma obrigatoriedade de a empresa destinar tantos por cento de sua renúncia fiscal aos Estados mais pobres ou a grupos regionais do Nordeste.
Esses pontos, felizmente, já estão amadurecidos por quem está discutindo o assunto e, certamente, serão modificados. O maior equívoco das leis de incentivo fiscal, no entanto, é jamais diferenciar os autores novos dos já consagrados. As leis foram redigidas ignorando o que deveria ser a principal preocupação do Programa Nacional de Apoio à Cultura: incentivar o surgimento de novos valores.
Embora amparada na Lei Rouanet, uma produção de um autor ou diretor estreante tem grande dificuldade de concorrer com produções de autores consagrados ou premiados e até de estrangeiros. Os patrocinadores, ao avaliarem seus mecenatos, são insensíveis a esse argumento. É evidente. Uma empresa interessada em patrocinar uma produção teatral receberá o mesmo percentual de renúncia fiscal na produção de um novato ou na de um autor famoso. Isto é, para o governo, um estreante e Shakespeare têm o mesmo valor.
As empresas estão preocupadas com a exposição de suas marcas, qual a expectativa de público, qual o teatro. O critério é o currículo. E elas estão certas. Errado está o governo, que abre mão de seus impostos sem traçar estratégia. Na iniciativa privada é diferente. Um autor ou cineasta reconhecido, premiado, com quem a empresa terá, sem correr grande risco, o retorno esperado, deve receber menos incentivo fiscal que um autor inédito. Um autor estrangeiro, no caso do teatro, deve receber menos ainda. Tem de haver um escalonamento.
Essa distinção é fundamental porque as leis são de fomento cultural, e nunca podem ser de sustentação de empresas de marketing. Por falar nisso, deve-se estabelecer um valor para esses escritórios cobrarem por um registro na Lei Rouanet. Atualmente há gente no mercado que pede de R$ 3.000 a R$ 5.000 só para cadastrar o projeto. Isso deveria ser crime, pois os custos desse processo (graças ao excelente trabalho do Ministério da Cultura e da Receita Federal) é de, no máximo, R$ 100.
As primeiras notícias sobre a revisão da Lei Rouanet são estimulantes. A começar do que já foi divulgado nesta Folha -que as empresas, para se beneficiarem da isenção, terão de patrocinar outro projeto sem dispor de renúncia de impostos. O governo, assim, estabelece a tão discutida contrapartida social.
Uma atriz consagrada montou, recentemente, um texto estrangeiro usando a lei e achou-se no direito de bradar contra a meia entrada para estudantes. Ela acredita que isso é responsabilidade do governo. E é. O governo deveria obrigar o artista que recebe incentivo fiscal a devolver ao cidadão essa ajuda estatal.
Estimular a formação de platéia, o artista novo e levar a cultura a um Brasil distante deve ser a roupa correta para o governo acertar na etiqueta social.
enviada por Jorge Felix
03/04/2007 17:12
Brecht para as massas
Num país como o Brasil, vice-campeão mundial em desigualdade de renda, atrás apenas de Serra Leoa, o dramaturgo alemão torna-se mais contemporâneo do que a telenovela do momento
A melhor forma de transmitir conceitos de R.H. e relações interpessoais dentro do espaço corporativo pode ser uma sessão da peça A alma boa de Setsuan, de um tal de Bertold Brecht, em cartaz no Teatro da USP, na brechtiana Rua Maria Antônia, em São Paulo. O motivo da indicação é simples e parte da pergunta que o autor tentou responder: Vivendo num mundo competitivo, onde predominam as necessidades materiais do ser humano, o homem pode exercer a bondade ? Pode ajudar ? Pode ter preocupações altruístas ? Escrita quando o nazismo assolava a Europa e a benevolência humana era desafiada pelos limites da sobrevivência, o texto é perfeito para discutir a capacidade de tolerância, complacência, reação e afeto nesses nossos dias.
Foi a partir deste questionamento que os atores da Cia Oberson, Lourdes e os Mexicanos escolheram o texto e o resultado foi surpreendente. Em duas horas e meia de espetáculo, o elenco sustenta o drama da personagem que quer ser boa, mas abre mão de sua vocação porque precisa reagir às ações dos outros num ambiente adverso. A peça mostra como dentro de um sistema onde as pessoas querem ter sua casa, seu carro, etc, pensar nos outros, complica, afirma Fernando Nitsch, 27 anos, que divide a direção com Rui Cortez, 30 anos. O foco da montagem foi fazer a história compreensível, desmistificando o autor. A composição jovem do grupo favoreceu a empreitada, que conta ainda com atuações precisas dos atores Leda Maria e Pablo Sgarbi, como protagonistas.
O mérito da montagem é justamente traduzir Bertold Brecht (1898-1956) para a nova geração. Qualquer diretor disposto a encená-lo hoje enfrentará, de cara, um desafio, sobretudo e sempre é bom que seja assim, para seguir as rígidas diretrizes do dramaturgo alemão se estiver trabalhando com um elenco de jovens. Como explicar Brecht para uma geração que nasceu com o fim da Guerra Fria, soube da existência do Muro de Berlim pela tevê, pelos livros ou pela internet e está seduzida pela sociedade de consumo e muito mais inclinada a disputar o seu lugar neste mundo financista globalizado do que afeita às pregações comunistas tão presentes ou leitmotiv da obra do fundador do Berliner Emsemble ? No entanto, esta é apenas a primeira impressão e, para ser bem brechtiano e quebrar a regra, não é a que fica. Embora por sua obsessão em transmitir os conceitos socialistas por meio de seu teatro, Brecht possa parecer démodé, ele nunca esteve tão atual.
A explicação é simples. Brecht foi o autor da condenação à guerra, ao preconceito, à discriminação e, acima de qualquer outro tema, foi um dos melhores retratistas das diferenças sociais. Num país vice-campeão mundial de desigualdade e má distribuição de renda, atrás apenas de Serra Leoa, Brecht torna-se mais contemporâneo do que a telenovela do momento. É fácil entender, portanto, como a indústria cultural está voltada para Brecht, promovendo uma retomada. Numa primeira olhada, pode parecer que o autor está relegado ao exílio. Engano. O lançamento de Estudos sobre teatro, reedição da Editora Nova Fronteira, (256 páginas, R$ 29,00), com as anotações do encenador sobre suas próprias peças, é um marco nesta onda de revival do autor de Galileo Galilei.
É claro que a primeira edição, nos anos 60, em plena ditadura militar, causou muito mais frisson. Minha geração leu este livro com uma devoção cristã, apesar de todo nosso ateísmo comunista. Alguns, foi o meu caso, nem esperaram o livro chegar aqui, lemos tudo sem gerúndio mesmo, na edição portuguesa. (...) Bom, não vou falar dos outros que leram nessa época, mas eu não entendi da missa a metade, conta o diretor Aderbal Freire Filho, num apropriado texto de apresentação à nova edição. Brecht morreu ?, questiona ele. Brecht está mais vivo do que nunca (...) nada é tão importante para a perfeita compreensão do teatro do século 21 quanto a obra de Brecht, tanto suas peças quanto sua obra teórica, concluí Aderbal.
É justamente a derrota do socialismo e a hegemonia capitalista financeira que torna a obra de Brecht cada vez mais moderna. Ele foi visionário e pregou, panfletou, alertou que tudo iria chegar exatamente onde estamos. Nesta retomada do autor, para aqueles que preferem uma discussão das teorias de interpretação de Brecht o distanciamento e as polêmicas (ou falsas polêmicas que a envolvem), o Teatro Fábrica São Paulo (Rua da Consolação, 1623, no Centro da capital paulista) promove até o dia 21 de junho o ciclo de palestras Diálogos com Brecht, coordenado pelo diretor e autor Flávio Desgranges, com participação de José Antônio Pasta Junior, Celso Favaretto, Iná Camargo Costa e outros. Especialmente agora é necessário montá-lo e discutí-lo, as contradições do capitalismo só acirraram a atualidade da obra dele, isso é terrível, mas é verdade, afirma o ator Sérgio Audi, da coordenação do Fábrica.
Com a preocupação de levar o texto de Brecht ao público mais carente matéria prima das peças do autor alemão o Fábrica mantém uma montagem de A exceção e a regra cujas sessões são em horários especiais para Ongs, instituições de terceiro setor e comunidades da periferia de São Paulo. Seja nas peças didáticas, seja nas épicas, a platéia é atuante, crítica e aceita muito bem a dramaturgia do Brecht, eu acho até que o didatismo, que muitas vezes é criticado, resgatado para o século 21, tem muito mais a ver hoje, afirma Sérgio Audi.
Até mesmo o escritor e dramaturgo francês Jacques-Pierre Amette (ou Paul Clément, para quem prefere seu pseudônimo para livros policiais) chega ao Brasil na esteira deste bloco brechtiano com o romance A amante de Brecht (ed. Record, 238 páginas, R$ 29,90). Amette coloca uma atriz-espiã na cola do dramaturgo alemão explorando um questionamento que sempre intrigou a Alemanha socialista (RDA): por que Brecht preferiu o exílio nos Estados Unidos ? O romance é delicioso, daqueles que vira uma brincadeira descobrir o que é verdade e o que é ficção. Uma prova que Brecht está mesmo por toda a parte.
O lendário crítico Kenneth Tynan, ao escrever sobre Brecht, logo depois da morte do autor alemão, destacava a onipresença do dramaturgo na Alemanha no fim dos anos 50. Ele bateu um recorde: pela primeira vez na história do teatro alemão, um dramaturgo nativo contemporâneo estava entre os quatro cujas obras foram mais representadas nos países de língua germânica. Shakespeare, como sempre, ocupou o primeiro lugar, com 2674 representações, seguido por Schiller, com 2 mil, Goethe, com 1200 e Brecht, com 1120 (Molière, B. Shaw e Hauptmann, nesta ordem vieram a seguir), contou Tynan. Hoje Brecht já não é tão encenado assim, seja na Alemanha ou no mundo, até porque suas peças são objeto atualmente de grande divergência por direitos autorais.
Um autor como ele, porém, sempre conseguiu passar, com louvor, por momentos de ostracismo e até nestes criava obras-primas, como no Soneto da Emigração, um de seus raros momentos de lamento pessoal durante os 15 anos de exílio que lhe obrigou o nazismo: Expulso do meu país, tenho que ver agora / como abrir uma nova tenda, algum lugar onde possa/ vender o que eu penso./ Tenho que voltar a percorrer os velhos caminhos,/ trilhados pelos passos dos que perderam toda esperança!/ Já em marcha, não sei entretanto que caminho tomar./ Para onde vou, ouço: soletre o seu nome!/ Ah, este nome que já foi célebre!
(matéria publicada no caderno EU&Fim de Semana, do jornal Valor Econômico, 17/06/2005)
enviada por Jorge Felix
28/03/2007 14:50
Os novos shakespeareanos
A obra do autor inglês vive no Brasil tempos de interesse renovado, com leitura que se diversifica para atingir públicos sempre mais amplos
Uma das explicações mais consensuais para a popularidade de William Shakespeare (1564-1616) é a extrema preocupação que ele sempre teve em ser compreendido por aqueles menos letrados.
O bardo inglês insistia em usar as imagens mais corriqueiras, as metáforas (já que está em moda falarmos delas) mais democráticas e situações bem familiares para seu público. É por isso que causa urtigária em alguns admiradores de sua obra a pecha de difícil, incompreensível ou erudito que ele, injustamente, carrega mundo e séculos afora.
Aos leitores pode parecer exercício de soberba afirmar que Shakespeare é tão fácil quanto as centenas de livros de auto-ajuda empresarial ou administrativa que lotam as estantes de homens de negócio. No entanto, basta um pouco de familiaridade com a obra do poeta universal e não é à toa que ele honra esse título para jogarmos no lixo todas as lições dos autores que fazem sucesso com suas pregações de management.
Durante todo o dia de hoje, há uma boa oportunidade para os interessados em arriscar um contato com Shakespeare. Mais uma vez se repetirá uma cena que está se tornando comum no Brasil ou bem mais comum do que pode imaginar nossa vã filosofia. Um auditório lotado para discutir a obra do dramaturgo. Por nove horas, alguns dos maiores especialistas brasileiros em Shakespeare, atores e diretores de teatro e de cinema debatem com uma platéia.
É a 2ª Jornada de Estudos Shakespeareanos, organizada pelo professor John Milton, no Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo (USP). Mas é mera coincidência o evento estar em um ambiente acadêmico. Nos últimos anos, Shakespeare invadiu novos palcos, salas de visitas e até empresas, tamanho a procura por sua dramaturgia 400 anos depois de sua morte.
Na década de 90, profissionais de várias áreas decidiram aventurar-se por uma expedição pela obra do maior dramaturgo inglês e o crescimento do interesse por Shakespeare no Brasil provocou um boom de montagens, edições, novas traduções e, sobretudo, o surgimento de um grupo de acadêmicos com trabalhos e teses de nível internacional. E nota-se: Shakespeare é um dos autores mais estudados no mundo. É impossível manter-se atualizado com tudo o que sai, estima-se que são mais de 6 mil trabalhos por ano, afirma a crítica de teatro Bárbara Heliodora, uma das maiores autoridades em Shakespeare no mundo, doutora em artes pela Universidade de São Paulo com o monumental A expressão dramática do homem político em Shakespeare (Paz e Terra, 1978) este e o seu Falando de Shakespeare (Perspectiva, 1998) são obrigatórios para os interessados em embrenhar-se pelo pensamento do autor.
Durante muitos anos, Bárbara foi sinônimo de Shakespeare no Brasil. Ainda é. Mas agora o dramaturgo já conta com um elenco de pelo menos 30 protagonistas reunidos no Centro de Estudos Shakespeareanos (www.funedi.edu.br/cesh). Alguns sairam das salas de aula da própria Bárbara, outros já iniciaram a vida acadêmica seduzidos pela poesia elisabetana.
Sediado em Belo Horizonte, o centro é ligado à Fundação Educacional de Divinópolis, da Universidade Estadual de Minas Gerais, e coordenado pela professora Aimara da Cunha Resende, primeira latino-americana a ser convidada para o encontro anual do Shakespeare Institute, em Stratford-on-Avon, cidade natal do dramaturgo. No ano passado, Aimara coordenou a edição de Foreign accents: brazilian reading of shakespeare, editado pela Universidade de Delaware, com artigos de 14 acadêmicos brasileiros.
Os pesquisadores do mundo inteiro se interessam em conhecer a leitura brasileira da obra de Shakespeare, afirma Aimara, uma das palestrantes de hoje na USP.
Essa leitura nacional está cada vez mais diversificada, produtiva e preocupada em levar a poesia de Shakespeare a todos os níveis de conhecimento. Há desde uma primorosa tradução, como a de Cimbeline, rei da Britânia (Editora Iluminuras), assinada pelo professor José Roberto OShea, até um esforço de popularização da dramaturgia shakespeareana com o trabalho do escritor Fernando Nuno, que converteu à prosa Hamlet, Macbeth, Sonho de uma noite de verão e Romeu e Julieta (serão 12 volumes numa coleção da Editora Objetiva). Quando comecei a ler Shakespeare na juventude queria ser engenheiro, li tudo o que a biblioteca possuia, e tenho certeza de que foi isso que me fez mudar de carreira, lembra Nuno, formado em Jornalismo, Letras e História da Arte.
O trabalho de José Roberto OShea é considerado um dos de maior fôlego acadêmico. Primeiro pelo repertório, seleciona peças pouco conhecidas e jamais encenadas no país, e depois porque se dispõe a uma tradução com valor acadêmico, com notas e pesquisa árdua. A tradução de Cibeline de OShea ficou em segundo lugar no Prêmio Jabuti do ano passado.
O professor já concluiu também Antônio e Cleópatra e Conto de inverno está no prelo. Um dos campos dos chamados estudos shakespeareanos que mais cresce e mais desperta interesse é a questão do foreign Shakespeare (i.e. Shakespeare estrangeiro, termo cunhado por Dennis Kennedy, chefe do Departamento de Teatro do Trinity College, em Dublin).
A indagação básica que alimenta as pesquisas nesse campo tão promissor é: que fenômenos podem ser observados na concepção, encenação e recepção da dramaturgia shakespeareana quando esta é destituída do próprio inglês elisabetano, quando é transportada para outros contextos culturais e encenada, por exemplo, em japonês, português na variante brasileira ou em suaíli ?
No Brasil, Shakespeare tem permitido uma leitura bastante eclética. Das telenovelas (o Cravo e a Rosa, por exemplo, adaptação de A Megera Domada) até as montagens, como agora o Hamlet musical em cartaz na Cultura Inglesa, em São Paulo, entre outras cinco encenações do autor na cidade e mais uma no Rio de Janeiro, passando pelas teses e trabalhos universitários.
Autora da elogiada introdução de Cibeline, a professora Marlene Soares dos Santos, da Universidade Federal do Rio, lembra que o Brasil sempre contou com traduções notáveis, mas o aumento do interesse tem permitido a editoras e tradutores aprimorarem ainda mais essa excelência. Um dos grandes trabalhos, segundo Marlene, é a tradução de Rei Lear de Aíla de Oliveira Gomes, uma veterana estudiosa do bardo.
O Raul Cortez chorou quando leu a tradução dela e não pôde ler mais porque já queria trocar trechos do texto que ele estava encenando, testemunha Marlene.
A tradutora hors-concours no país ainda é Bárbara Heliodora, com o maior número de títulos traduzidos (Lacerda Editores). Sem revisor, sem qualquer tipo de auxílio em pesquisa, cumprindo prazos curtos, sem apoio financeiro além de direitos autorais e desdobrando-se em outras atividades, como cursos e palestras pelo país todo e uma constante atividade de crítica teatral, Bárbara, aos 80 anos, é quase uma heroína do autor que propaga.
No entanto, ela mesma acredita no surgimento de novos especialistas respeitáveis, como OShea e Aimara. As inúmeras atividades de Bárbara, que chega para uma aula num sábado pela manhã direto do aeroporto, é a maior prova da enorme demanda por Shakespeare no Brasil.
Preocupadas em atender a este novo leitor brasileiro de Shakespeare, as editoras buscam títulos além das obras traduzidas. Em 2001, chegou às livrarias uma biografia clássica, Shakespeare, uma vida (Companhia das Letras), de Park Honan. OShea além de traduzir Gênio (Objetiva) de Harold Bloom, colocou nas prateleiras outro livro indispensável do especialista, Shakespeare, a invenção do humano (Objetiva), no qual o crítico literário afirma que Shakespeare foi mais importante para o pensamento ocidental do que qualquer outro filósofo.
Recentemente, dentro desse esforço de atender a um público crescente foi lançado aqui com mais de 40 anos de atraso o livro de Jan Kott, Shakespeare, nosso contemporâneo (Cosac e& Naify). E outros ainda virão. A Record prepara a reedição de Sonetos, de Jorge Wanderley. E, em maio de 2004, O rosto de Shakespeare, mistério literário e histórico com uma trama detetivesca sobre a busca e exploração da verdadeira imagem do poeta a partir de uma pintura do século XVII, descoberta em 2001 no Canadá. Aqui no Brasil se falou pouco dessa imagem, mas foi notícia no mundo todo.
O trabalho das editoras estimula os novos shakespeareanos brasileiros, alimenta novas montagens e aproxima o pessoal da pesquisa com o do teatro. A professora Liana Leão, da Universidade Federal do Paraná (Ufpr), autora de tese sobre A Tempestade é um desses exemplos de intercâmbio entre o mundo acadêmico e o palco. Debruçou-se sobre a montagem de Caliban, do ator Marcos Azevedo, encenada em Londres e Edinburgo.
O diretor Felipe Hirsch trabalha com a consultoria da professora Celia Arns de Miranda, também da Ufpr. Havia dois mundos diferentes, o acadêmico e o do teatro, agora esse diálogo tem sido mais frequente e quando ele existe é ótimo, festeja Aimara.
Esse intercâmbio, porém, tem alcançado terrenos mais distantes.
No seu trabalho, Dirigindo Shakespeare, a professora Margarida Gandara Rauen, outra da Ufpr, atribui o crescimento do interesse por Shakespeare a melhores traduções e ao seu caracter de autor de todos os tempos e todo mundo. Acreditando nisso a professora Miria Gomes, de Belo Horizonte, apresentou tese de mestrado na Unicamp estudando o ensino de Shakespeare nas escolas públicas da periferia. Há muitos estudos promissores como este, a popularização só pode levar o aluno a ganhar, acredita Aimara.
Além das escolas, as empresas começaram a perceber que a obra de Shakespeare é valiosa para os ensinamentos de administração, política, psicologia e economia. Os shakespeareanos são requisitados para palestras em empresas ou até mesmo aulas interpretativas. A obra de Shakespeare é importante para um homem de negócio constatar a importância crucial da palavra, do silêncio e do gesto em qualquer processo de negociação, aponta OShea.
A obra mais citada como indispensável para aqueles que lidam com a economia é O Mercador de Veneza. O dinheiro é o tema central da peça e Shakespeare não fala é isso, é assim, ele apresenta a situação, age como um psicanalista, leva a pensar, explica Aimara.
Em O Mercador de Veneza, Shakespeare resume quase todos os temas do debate econômico da atualidade. Os juros altos cobrados pelo judeu Shylock estão no centro da ação dramática.
Mas outros temas como empreendedorismo (nas atividades de Antônio, o mercador), o antisemitismo gerando um conflito social, o dumping (Eu o odeio...empresta ouro grátis rebaixando os juros cobrados em Veneza, diz Shylock), a desigualdade social na fala de Nerissa, a aia de Pórcia (Os que saturam por excessos ficam tão doentes quanto os que minguam por falta), a concentração de rendas (Dinheiro demais compra cabelos brancos, outra fala de Nerissa). Mas é na pregação do liberalismo econômico que O Mercador de Veneza ganhou o coração de economistas como Roberto Campos (1917-2001). Uma das frases que este velho shakespeareano gostava de colocar como epigrafe de seus artigos era uma fala de Shylock: Lucro é benção se não for roubado.
(Publicada no jornal Valor Econômico, 21/11/03)
enviada por Jorge Felix
28/03/2007 14:28
Matemática da vida
(Esta matéria foi publicada pelo jornal Valor, em 2005, Ano Internacional da Ciência, e foi reproduzida no programa da peça "A dança do universo", da companhia Projeto Arte-Ciência no Palco)
Eu não me guio muito pelo raciocínio. É a intuição que mostra a solução dos problemas. A frase do cientista pernambucano Mario Schenberg (1914-1990) explica como o ator Carlos Palma, numa viagem ao Chile, decidiu assistir o monólogo Einstein, do canadense Gabriel Emanuel, e encontrou ali a saída para a inquietação de estar cinco anos longe do palco. Isso foi em 1995.
Três anos depois, Palma montou a peça no Brasil. Voltou a atuar e encontrou a razão para a sua arte. A divulgação científica fez do Núcleo Arte e Ciência no Palco uma referência como companhia estável e soma hoje um repertório de sete espetáculos e quatro prêmios. Neste 2005, ano mundial da física, o grupo dá um grande passo para sua longevidade ao estrear, no 14° Festival de Curitiba, o texto A dança do universo, o primeiro sobre um cientista brasileiro.
É claro, o escolhido foi Schenberg. Depois de Albert Einstein, Leonardo Da Vinci, Richard Feynman, Niels Bohr, Werner Heisenberg e Alan Turing era o momento de destacar a ciência brasileira. A dança do universo, inspirado no best-seller homônimo do físico Marcelo Gleiser, é também o primeiro texto nacional montado pelo núcleo (a única exceção foi o infantil Da Vinci, pintando o sete, de Francisco Alves).
A peça foi escrita pelo ator Oswaldo Mendes, intérprete de Schenberg. Como nas montagens anteriores, o texto segue as mesmas orientações das peças anteriores. O teatro deve falar sobre os dramas humanos, emoção, moral, ética e a ciência está no centro destes conflitos. Nada pode ser encenado com aquele tom didático antigo, afirma Palma.
Foi mais preso à matemática da vida, como ele define, que o ator e diretor fez da ciência uma desculpa ou uma metáfora - para discutir o Homem e acabou atraindo mais de 500 mil espectadores às sete peças do núcleo. O que nos interessa é o lado humano dos cientistas que, no final das contas, é o que vai impulsionar o que eles irão fazer e descobrir no campo científico, conclui.
O ponto de vista é importante porque a maior dificuldade do grupo além do patrocínio de sempre, agora parcialmente resolvido com o apoio da Interprint e do Colégio Etapa é encontrar bons textos sobre o tema. A dança do universo é o resultado de um longo processo de leituras, adaptações e encomendas de peças sem sucesso. Sempre quis ter um texto nosso, mas é muito difícil encontrar a ciência na dramaturgia brasileira e encontrá-la sem hermetismo aí é mais difícil ainda, afirma o ator.
Oswaldo Mendes aceitou o desafio e, por estar tomado pela conceituação do grupo em relação ao que pretende mostrar, conseguiu caminhar com equilíbrio entre o que é teatro e o que é escola. Se o autor tiver na cabeça que precisa ensinar alguma coisa, já dançou, recomenda Palma. É com esta convicção que as peças conseguem seduzir mesmo um público leigo e até avesso à ciência, mas interessado na difícil equação da vida.
Em Quebrando códigos (2003), do inglês Hugh Whitemore, o grupo contou os dilemas do matemático Alain Turing (1912-1954), que decifrou os códigos alemães durante a 2ª guerra, montou uma máquina precursora do computador e morreu ao morder uma maçã envenenada que mais tarde seria a logomarca adotada pela gigante da informática Apple.
O motivo do suicídio foi a quebra de um código de conduta pois Turing era homossexual.
Até 2001, quando estourou com a montagem de Copenhagen, do britânico Michael Frayn, o Núcleo Arte e Ciência no Palco cumpria temporadas tímidas em relação ao público. A crítica carioca Bárbara Heliodora, no entanto, definiu a peça com uma frase de efeito: Isso é que é teatro!. A epígrafe fez da história de um encontro entre os pais da bomba atômica, Niels Bohr e Werner Heisenberg, um sucesso e permitiu uma nova temporada paulista no Teatro Folha.
Dali em diante, todas as peças do Núcleo estão permanentemente em cartaz, sendo em turnês ou apresentações únicas em escolas, universidades e empresas. Copenhagen, mesmo com mais de três horas de duração, conquistou as platéias e rendeu prêmios de melhor espetáculo e melhor diretor para Marco Antônio Rodrigues, além do Prêmio Estímulo Flávio Rangel, concedido pelo governo de São Paulo.
O melhor de tudo foi que o projeto ganhou fôlego. O Núcleo Arte e Ciência no Palco hoje é sinônimo de bons espetáculos, interpretações primorosas e pesquisa séria. É com este patrimônio que Palma e Oswaldo estão à frente de um elenco de mais cinco atores, dirigidos por Soledad Yunge, para incluir mais um personagem da ciência nesta galeria.
O Núcleo quer fazer de 2005 um marco na divulgação científica por meio do teatro. A montagem de A dança do universo faz parte de um plano ambicioso com uma programação de palestras, debates e outros eventos paralelos que surgirão no embalo das comemorações do centenário da teoria da relatividade.
O espetáculo começa justamente com esta efeméride. Um grupo de teatro ensaia uma montagem comemorativa e para unir o mundo objetivo (da ciência) ao subjetivo (do teatro) traz à lembrança a figura de Mário Schenberg e, com ele, mergulha no interminável conflito entre a ignorância e o conhecimento, desde os mitos da Criação. Durante este processo, outros personagens entram em cena como Copérnico, Kepler, Galileu, Newton e Einstein.
Aos poucos, revela-se, pelo humor e pela poesia, a condição humana desses homens que mudaram a nossa relação com a Natureza e com o Universo. Se graças a eles não precisamos tanto, como no passado, de Deus ou de Deuses para entender o mundo, isso faz crescer em nós a consciência de que o Homem é o destino do Homem, como dizia o poeta Bertolt Brecht, diz a sinopse da peça.
A biografia de Schenberg é um excelente estímulo para aquecer este debate. Como se sabe, este professor venceu resistências e conseguiu instalar o primeiro computador da Universidade de São Paulo. Schenberg foi uma personalidade brasileira na ciência, nas artes e na política. Na primeira, criou o chamado Processo Urca, em 1940, com o astrofísico George Gamow, depois de reparar que este tinha feito cálculos incompletos para desvendar o segredo do colapso das estrelas supernovas.
O nome de batismo fazia referência ao Cassino da Urca, o qual Gamow visitou a convite do amigo brasileiro e onde o dinheiro desaparecia muito rápido, como as supernovas. No campo artístico, Schenberg reinventou-se crítico de arte dos bons depois de perder o mandato de deputado estadual devido à extinção do partido comunista.
Outra cassação viria na década de 60 e uma terceira, desta vez levando-o à aposentadoria compulsória como professor no vendaval antidemocrático do AI 5, baixado em 1968.
A ousadia de contar essas biografias no teatro empresta ao Núcleo Arte e Ciência no Palco uma distinção de coragem. Além de apostar no teatro, aposta na ciência e abre mão de textos fáceis e ligeiros. O curioso é que a única comédia no repertório do grupo, Perdida...uma comédia quântica, do espanhol José Sanchis Sinisterra, foi justamente a peça de menor sucesso, embora Oswaldo tenha recebido uma indicação ao Prêmio Shell.
O fato só reforça a vocação do núcleo para trilhar um caminho aparentemente mais árduo, mas que se descobre o mais promissor para o seu teatro. Um percurso similar ao de muitas descobertas científicas.
No ano passado, a peça E agora, sr. Feynman?, do americano Peter Parnell, sobre a vida de Richard Feynman acabou antecipando uma onda de interesse pela história do físico americano no Brasil. O livro O arco-íris de Feynman (Editora Sextante), lançado recentemente, já está em algumas listas de best-seller.
Peça e livro seguem o mesmo roteiro: a conversa de um jovem cientista com o gênio. No prefácio, o autor Leonard Mlodinow escolheu uma frase do nobel Julian Schwinger sobre Feynman que vem bem a calhar com o trabalho do grupo: Assim se manifestou um homem honesto o maior intucionista de nossa era e o mais perfeito exemplo do que pode conseguir quem quer que tenha coragem de remar contra a corrente.
(Publicada em 24 de março de 2005, jornal Valor Econômico, Caderno EU&Fim de Semana)
enviada por Jorge Felix
27/03/2007 15:53
Shakespeare para advogados
Aos advogados, recomendo a leitura de "Shakespeare e a Justiça", última parte do livro "Reflexões Shakespearianas", de Barbara Heliodora (Lacerda Editores, páginas 240 a 351).
São as palestras feitas pela autora no Centro Cultural da Justiça Federal do Rio de Janeiro.
Barbara fala da cidadania, da misericórdia, do respeito às leis, da lei natural e a transgressão e como esses temas caros ao Direito estão retratados na obra de Shakespeare e como eram entendidos em seu tempo (fim do séc. 16 e início do 17).
enviada por Jorge Felix
26/03/2007 13:15
Revista Artefilosofia
A Editora Tessitura e o Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da UFOP - Universidade Federal de Ouro Preto acabam de editar o segundo número da REVISTA ARTEFILOSOFIA.
Nesta edição artigos de Slavoj Zizek, Jean-Claude Milner e Bruno Haas, entre os autores estrangeiros, além de nomes como Rodrigo Duarte, Vladimir Safatle, Charles Feitosa.
Maiores informações em www.raf.ifac.ufop.br.
enviada por Jorge Felix
23/03/2007 00:18
O dinheiro sobe ao palco
Mais uma vez, Molière e Shakespeare são encenados para dar voz a um protagonista secular da história da humanidade: o dinheiro, com seu poder de provocar conflitos em almas despreparadas para compreender sua verdadeira essência.
Por Jorge Felix
(matéria publicada no jornal Valor Econômico, 1/09/2006)
O repertório da dramaturgia brasileira é parcimonioso com o dinheiro. Embora o Brasil seja um país com uma história marcada pela corrupção ou seja, a ganância e as turbulências na política econômica (desde a sua formação capitalista até a sua sobrevivência em tempos contemporâneos no altar dos deuses do G-8), os autores brasileiros nunca dedicaram ao tema um grande ou importante espaço na cena nacional. Claro, sempre haverá quem levante a tese de que ao retratar o indivíduo em diversas situações de conflito ou penúria em sua vida cotidiana, o teatro está falando do dinheiro. Mas o fato é que a relação com o dinheiro tem despertado pouco interesse dos autores brasileiros.
As citações que vêm logo à lembrança são honrosas exceções para confirmar a regra, como A moratória, de Jorge Andrade (1922-1984) ou A torre em concurso, de Joaquim Manoel de Macedo (1820-1882). Estas, porém, muito mais voltadas para a economia ou a cultura do que para o trato com o dinheiro. Salvo comédias recentes sobre políticos corruptos ou outras caricaturas políticas, no bom sentido, escritas por Juca de Oliveira (Meno male ou Caixa 2), Marcos Caruso (Porca Miséria) ou até João Bethencourt (Bonifácio bilhões) há quase nada. Uma leitura dos livros do crítico Sábato Magaldi Panorama do Teatro Brasileiro (Ed. Global) e Moderna Dramaturgia Brasileira (Ed. Perspectiva) confirma que a relação do indivíduo com o dinheiro nunca foi uma temática de primeiro interesse para os dramaturgos brasileiros - embora as telenovelas a explorem de forma contumaz.
Outro título que pode marcar ainda mais a lista de exceções é o clássico O santo e a porca, de Ariano Suassuna, este sim um texto sobre o efeito do chamado vil metal nas relações humanas. Ou, se preferir o leitor, como o dinheiro é exigente, a ponto de apodrecer mesmo no conforto de um bom esconderijo, onde supostamente era tratado com todo o carinho. Suassuna nos mostra que o dinheiro quer é devoção. Neste momento em que a educação financeira está em pauta na vida do brasileiro, que os juros altos o estão transformando em, antes de tudo, um endividado, chama a atenção a ausência desta realidade contemporânea no nosso teatro.
No entanto, quando o tema é palpitante e está na frente de todos, sempre ganha a ribalta, independentemente da vontade dos novos autores. É isto que acontece agora quando o dinheiro sobe ao palco com as montagens simultâneas, em São Paulo, de dois clássicos, O avarento, de Molière (1622-1673), e Timão de Atenas, de William Shakespeare (1564-1616), textos que mostram há séculos o que o dinheiro pode e não pode comprar. As duas montagens, elogiadas pela crítica, colocam, respectivamente, os atores Paulo Autran e Renato Borghi encarnando personagens de histórias da difícil relação do homem com os valores materiais e o papel do dinheiro em nossa existência.
Timão foi a última tragédia do bardo inglês, pelo menos assim foi incluída no primeiro folio, de 1623. É um texto considerado inacabado e escrito entre 1608 e 1609, mas obrigatório para quem, hoje, lida com o dinheiro seu ou de outro. Traz inúmeras lições para os gestores de private banking, administradores de fortunas, porque Timão ouve a todos no seu período de bonança menos seu gerente financeiro que era, naquela Atenas, o mordomo. É pena ser tão cega a mão aberta pra não ter o infeliz a dor que é certa, diz o criado para si mesmo quando vê seu patrão surdo a seus apelos e benevolente com jantares, festas e presentes para os amigos. Timão introduziu a hoje badalada psicologia do dinheiro.
Até o personagem Apemantus, o filósofo, com toda a sua arrogância, prepotência e acidez é ouvido sempre, mesmo que apenas para alimentar a discordância. O mordomo nem isso. Timão só o escuta quando está na mais profunda inadimplência que resulta de seu hedonismo. Não é mera coincidência qualquer semelhança com o exército de orientadores financeiros que pregam planejamento de gastos em rádio, jornais e televisões e a multidão de inadimplentes verificada atualmente no Brasil. Shakespeare fala é disso.
O tema principal de Timão é a misantropia. Ele abandona a humanidade depois de ser repelido por amigos que ajudou na fortuna e o negaram a gratidão quando ele vai à bancarrota. Mas o que queria Timão? A bajulação pura e simples de todos que o cercavam em Atenas. Novamente um sentimento bastante semelhante com o de consumidores que, vivendo na sociedade de consumo, precisam consumir agora um determinado produto, signo de status, que abrirá as portas para a bajulação da sociedade contemporânea ou de determinado grupo social no qual são incapazes de serem aceitos sem a apresentação desses passaportes e, por eles, gastam o que não podem e entram em dívidas.
Hoje as pessoas vão a um restaurante, comem um pedacinho de carne, enfeitado com um alface, uma pimenta rosa e um aspargo, pagam uma fortuna pelo prato para quê? Para se encontrarem entre elas, é a fraternidade milionária, de casta, como na casa de Timão, compara Renato Borghi, que levou muitos anos sonhando em encenar o texto. É uma peça tão atual que as pessoas não acreditam que tenha sido escrita por Shakespeare, acham o tempo todo que estou improvisando, colocando cacos, diverte-se o ator.
Enquanto Timão fere suas relações pessoais devido à sua exuberância irracional, Harpagon, o personagem de Molière, corrói qualquer sentimento humano à sua volta com sua avareza. É o outro extremo. Molière buscou inspiração em Plauto e Ben Jonson para dizer ao mundo que, se por um lado, como afirmou Shakespeare, a casa muito farta um dia fecha, por outro, a cobiça pode arruinar o indivíduo, da mesma maneira.
O avarento acaba por ser derrotado quando a moça por ele desejada vem a casar-se com o filho a quem injuriou, embora sua dor seja levemente atenuada pelo pensamento de que sua filha, que estava prestes a fugir de casa com o namorado, vai casar-se sem dote.
Harpagon é uma caricatura e torna-se ainda mais cômico quando rouba aveia de seus cavalos ou quando sua aversão constitucional à palavra dar obriga-o a usar a saudação eu lhe empresto um bom dia.
A crítica Bárbara Heliodora observa que por mais risível que Harpagon possa ser, há uma carga de seriedade, de repúdio profundo a mais esse exemplo de desrespeito aos valores humanos, sem dúvida responsáveis pelo fato de a obra de Molière ser merecidamente muito mais consagrada do que a de Plauto. Molière coloca a questão com uma doçura através de seu humor talvez para dizer que podemos falar assim desse tipo de ser humano, mas estamos falando de um assunto patológico, concorda o diretor da peça Felipe Hirsch.
Cultuando o dinheiro, desrespeitando as proporções e os valores justos, ele se mostra antinatural, desumano, e é isso que Molière não perdoa, afirma Bárbara. Não é à toa, destaca a crítica, que o autor francês elegeu em sua obra o dinheiro e o ciúme entre os temas principais. São equivalentes. O ciúme desmedido também pode fazer a vida insuportável.
Certamente por ter testemunhado a era de formação do capitalismo, Shakespeare elegeu o dinheiro como o âmago de uma de suas maiores peças: O mercador de Veneza. Ao contar a história de Shylock, o judeu que cobra uma dívida com um naco de carne, o autor, no século 16, já enumera todos os conceitos do capitalismo, como o risco do crédito, o spread abusivo, o desperdício de patrimônio, a incompetência dos herdeiros, a necessidade de hedge, a regra básica de diversificação de investimentos entre tantos outros.
O texto de Shakespeare coloca claramente tudo isso e deveria freqüentar qualquer empresa, banco ou sala de aula de economia.
Enquanto os clássicos esbanjam, os textos contemporâneos por aqui são raros. Qual o motivo? No Brasil, atualmente, só querem falar sobre sexo, ataca Bárbara. Ela lembra que o teatro brasileiro sempre foi mais político-ideológico do que voltado para a economia. Primeiro por motivo histórico, que foi a ditadura, depois porque a economia brasileira nunca foi lá essas coisas para merecer uma dramaturgia própria. Os autores, com toda razão, sempre preferiram falar dos sentimentos humanos que são originados no ambiente que se vive e esse ambiente está, de qualquer forma, influenciado pelas questões da economia e do dinheiro, afirma. Mas já estava na hora realmente de os autores prestarem mais atenção em alguns problemas crônicos do país no que tange à economia.
Um dos coordenadores do ciclo de leituras dramáticas do Sesi, Renato Borghi leu, na última seleção, mais de 150 textos de novos autores. Ele concorda que o tema é desprezado pela maioria. Neste bolo, alguns falavam da miséria nordestina ou de mazelas nacionais, mas o dinheiro mesmo estava ausente. Está fazendo falta, gostaria de encontrar isso na dramaturgia nacional, alguém que pegasse o tema e o abordasse de forma dialética e não partidária ou simplesmente só antibancária, diz o ator.
Borghi lembra que, durante a ditadura, os autores obrigatoriamente voltaram-se para os temas ideológicos, depois, na década de 80, falar dessa realidade soava de mau gosto, era quase que necessário falar das patologias, dramas psicológicos, como se estes não tivessem a ver com a grana. Mas estavam mais preocupados em discutir a relação. Era natural porque a censura era moralista e queriam falar dessas coisas, do sexo, da vida amorosa ou do comportamento simplesmente, lembra Borghi. A nova dramaturgia, com certeza, vai tratar desse tema porque o momento que estamos vivendo no país impõe. Felipe Hirsch, embora discorde da afirmação de que a dramaturgia nacional seja pobre no tema, vê uma grande necessidade de discutí-lo. É tão óbvio a importância de montar O Avarento, ainda mais quando a gente houve defesas à ética distorcida ou que os fins justificam os meios, a peça fala de como o poder, as classes dominantes e as pessoas lidam com o dinheiro e temos que falar disso quando alguns começam a acreditar que uma atitude ilícita é, de algum jeito, justificável, afirma o jovem diretor.
No segundo texto de sua trilogia iniciada com Regurgitofagia, o vanguarista carioca Michel Melamed foi um dos poucos a entrarem no tema nos últimos tempos. Embora a crítica tenha recebido seu espetáculo com menos entusiasmo que o primeiro (no qual ele sentia choques quando a platéia ria), Melamed colocou a questão em cena com a peça Dinheiro grátis, na qual já no título diz a que veio. Seguindo sua linha de teatro participativo, Melamed encena um leilão usando o bordão não tem preço adotado pela propaganda de um cartão de crédito. O autor explora a construção do caráter financista na vida moderna e estimula a reflexão sobre seus efeitos na convivência urbanóide, mas Dinheiro grátis ainda é muito pouco para cobrir o débito da dramaturgia brasileira.
Sem muitos textos nacionais, os interessados no tema agarram-se a clássicos ou autores estrangeiros mais atentos. A diretora Ariela Goldman, por exemplo, estuda alguns textos, entre eles Glengarry Glen Ross (traduzido por O sucesso a qualquer preço, no cinema), de David Mamet. Atualmente ensaiando outra peça de Mamet, Ariela quer falar sobre o dinheiro. A gente tende a pensar em dinheiro, mesmo quando vai tratar de valor por um trabalho, como uma manifestação menor da vida. As pessoas têm vergonha de falar e esquecem que o comércio é uma troca. E ali está também incluída uma troca humana, seja entre pessoas, empresas ou países, analisa a diretora do megasucesso Novas diretrizes em tempos de paz (2002).
Mamet consagrou-se com este texto, vencedor do Pulitzer Prize for Drama de 1984. Cinco corretores são capazes de qualquer coisa para cumprir suas metas de vendas no caso o novo empreendimento que dá título à peça e nesta luta é só isso o que conta na relação entre seis homens que deveriam ser apenas bons colegas de trabalho. Mamet se utiliza disso para mostrar como se dão as relações humanas, como cada um se vira para vender. Neste momento, me interessa muito colocar este tema no palco, afirma Ariela, que ensaia outro texto de Mamet, Edmond. Na peça, uma cigana alerta um alto executivo (que será vivido pelo ator Marco Antônio Pâmio) de que sua vida é uma droga, apesar de ele ter no banco quantia suficiente para comprar tudo o que quer.
enviada por Jorge Felix
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